Fora do Carnaval, Fábio de Mello diz: ‘Prefiro ver pela TV do que copiar Las Vegas’

Fábio de Mello. Foto: Reprodução

Por Luiz Felippe Reis e Jonathan Maciel

Um olhar histórico sobre as comissões de frente do Carnaval carioca vai registrar, sem dúvida, o nome de Fábio de Mello como um dos gigantes coreógrafos em todos os tempos. Com a autoridade de um pentacampeão da festa, pela Imperatriz Leopoldinense (1994, 1995, 1999, 2000 e 2001), e com inúmeros prêmios na bagagem, o artista avalia os novos rumos do quesito que mais passou por transformações nas últimas três décadas.

Para o coreógrafo que tem passagens, além da Imperatriz, por Beija-Flor de Nilópolis, Mocidade, Estácio de Sá e Viradouro, as comissões de frente se perderam nas suas funções históricas e passaram a fazer reedições de outros espetáculos internacionais, deixando de lado a personalidade dos desfiles de escola de samba.

“Acho que as Comissões de Frente perderam o rumo. Elas passaram a ser um capítulo à parte da escola de samba, e eu aprendi que ela faz parte de um contexto e tem compromissos a assumir. É agregar a comissão ao enredo. A história teatral e coreográfica tem que fazer o público intuir o que vem pela frente. E o coreógrafo não pode ser egocêntrico e achar que vai fazer um espetáculo hollywoodiano, copiado do Youtube ou de Las Vegas e entender que aquele universo é teu, e a escola que se vire dali pra frente. Eu prefiro ficar vendo pela televisão do que copiar os outros, do Youtube, de Las Vegas. Eu preservo muito a autenticidade. Nunca consegui ver isso como quesito Comissão de Frente. Tem muita comissão de frente que não saúda o público, não apresenta escola, ficam anos e anos parados em frente à cabine de jurado. A comissão de frente passou a atrapalhar mais do que ajudar. Perderam o sentido”, opinou Fábio.

Comissão de frente da Imperatriz de 1994, coreografada por Fábio de Mello. Foto: Reprodução

Depois de uma era de ouro no comando da comissão de frente campeoníssima da Imperatriz Leopoldinense e trabalhos na Mocidade e Estácio, Fábio retornou ao Carnaval do Rio em 2011 e iniciou ciclos de trabalho em outras agremiações. A partir de então, o artista se deparou com novas tendências – incômodas a ele – que tomaram conta da festa:

“Não vejo semelhança das comissões atuais com as minhas. Depois que eu saí da Imperatriz, passei por traumas. Existia uma certa paranoia de que eu tentasse me adaptar a um universo que eu não pertencia, o dos tripés gigantes. Não sou radicalmente contra o tripé. Sou contra censura a qualquer limite de expressividade artística, mas moda é uma coisa que passa. A própria moda passa de moda. Eu não vejo novidade em nada. Eu pude presenciar coisas que aparecem nas comissões de frente como novidade, mas que eu vi há 30 anos. Quando tentaram me empurrar pra esse tipo de universo eu tive resistência. Eu resisti mais do que eu deveria. É uma grande honra estar a serviço da maior arte brasileira que eu conheço, mas quando começou a me impôr certas coisas do tipo ‘Tem que copiar uma pessoa’, ‘tem que vencer certa pessoa’… não era o meu espírito”.

Fábio de Mello lembra de dois contemporâneos, Renato Vieira e Ghislaine Cavalcanti, que assim como ele, não estão em atividade no Carnaval do Rio. Para ele, não há uma relação geracional que separa os mais antigos de atuarem nas principais escolas de samba. Os mais jovens, que hoje militam no Grupo Especial, têm a admiração do experiente coreógrafo, apesar das críticas.

Comissão de frente da Beija-Flor de 2012, coreografada por Fábio de Mello. Foto: Reprodução

“Não diria que a minha geração não se adaptou e por isso esteja de fora. Alguns que chegaram antes de mim, estão aí até hoje. Outros não se adaptaram tanto, alguns resistiram as novas tendências. O meu motivo por estar fora é saúde. A classe artística sabe que estou impossibilitado momentaneamente. É importante seguir as tendências, mas e quando as tendências ficam aquém do que você espera? Tudo na arte é altamente reciclável. Tudo num determinado momento pode voltar a ser o que era, ou andar pra frente de um outro jeito. Tenho muito orgulho de todos os coreógrafos, e torço por todos. Muitos que hoje são coreógrafos foram meus alunos, ou meus assistentes, trabalharam comigo. Alguns acertam muito, outros acertam menos, tem quem erre feio. Nas Avenidas de Carnaval do Brasil minha alma está espalhada. É óbvio que dá saudade. Mas melancolia de jeito nenhum. Se for chegado o momento de dar continuidade, estarei aberto”, adiantou Mello.

Ao longo de 21 carnavais, Fábio de Mello colecionou mais de 50 notas dez, além de premiações e títulos. Durante a década de 1990 e início dos anos 2000 chegou a ficar 11 anos sem tirar qualquer nota diferente de dez, um recorde até hoje. O último trabalho do coreógrafo no Grupo Especial foi em 2015, de volta à Imperatriz Leopoldinense. Ele teve como resultado vitórias em prêmios individuais e foi avaliado pelos jurados com as notas: 10; 9,8; 9,9; 9,9.

Comissão de frente da Imperatriz de 2015, coreografada por Fábio de Mello. Foto: Reprodução

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