Deslumbrante e correta, Viradouro fecha com chave de ouro desfiles do Rio

Viradouro: Reprodução

Coube a Unidos do Viradouro, sexta escola a entrar na Avenida na segunda noite de desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro 2023, passar a chave e encerrar o espetáculo na Marquês de Sapucaí.

E foi em grande estilo. Sob uma gestão elogiada e que promove grande investimento, se viu a aplicação dos recursos e fez Carnaval em alto nível, do início ao fim.

Já na manhã de terça-feira (21), somando ao visual deslumbrante e performance elogiável dos módulos musicais e de seus componentes engajados em “gritar” o melódico samba, se colocou como postulante ao título deste ano.

+ quesito, enredo:

O desfile da Viradouro teve novo desafio, para seu carnavalesco, Tarcísio Zanon. Nesse ano, inaugurou sua carreira solo no Grupo Especial.

E trouxe o enredo Rosa Maria Egipcíaca, inspirado no livro Rosa Egipcíaca: Uma Santa Africana no Brasil, do antropólogo e historiador Luiz Mott, de 750 páginas. O autor origina sua pesquisa de resgate dessa personalidade do século XVIII nos manuscritos da inquisição portuguesa que estão localizados na Torre do Tombo em Portugal. E quem foi Rosa?

Foi a primeira mulher preta a ter escrito um livro, do qual restaram algumas páginas manuscritas. Viveu 46 anos, sendo 20 deles no Rio de Janeiro. Ela nasceu na Costa da Mina, de Nação Coura, do grupo Mahi, foi escravizada e vendida aos traficantes de escravos, sendo desembarcada no Rio de Janeiro em 1725, aos seis anos de idade.

Denso, o enredo fez um resgate de uma personagem desconhecida da nossa história que foi marcante por sua vida sofrida, seja pela escravidão, prostituição ou por sua mediunidade, que lhe causavam visões e transes, onde era levada do inferno ao paraíso. Respeitada, admirada e cultuada por sua trajetória, desafiou e enfrentou uma sociedade escravocrata, masculina e preconceituosa de um Brasil Colonial, conquistando algo inimaginável para uma mulher preta, ex-escrava e ainda letrada. Resistiu até onde pode, mas sucumbiu quando escreveu um livro com novos dogmas cristãos. Foi presa e julgada pela Santa Inquisição, em Lisboa, por sua ousadia, terminando sua vida nos calabouços portugueses.

+ comentaristas do SRzd avaliam desfile:

Cadu Zugliani: “O samba da Viradouro já era um dos melhores no pré-carnaval e com o casamento Ciça/Zé Paulo ao vivo, arrebentou. Diferente do ano passado quando a escola parece não ter achado o andamento mais correto para a carta, esse ano encontrou com sobras. A obra tem momentos que ajudam demais o canto da escola, tanto que a bateria abusou de paradinhas longas. Como é bom cantar um bom samba. Espetacular”.

Célia Souto: “A última escola dos desfiles entra na Sapucaí se empenhando para cantar o samba-enredo com garra e empolgação, os componentes demonstram concentração em relação a totalidade do samba. A evolução se desenvolve com domínio para manter a regularidade no andamento entre as alas. Um lindo desfile equilibrando harmonia, ritmo, melodia e evolução”.

Junior Schall: “Encerrando os desfiles do Grupo Especial, a Viradouro, com todo o poder da sua comunidade, trouxe um enredo belíssimo. Uma história muito rica, contada com sensibilidade e muita força na composição dos seus elementos visuais. Todo projeto de Carnaval da escola compreende, com raro equilíbrio de potências, as vertentes estéticas e técnicas que servem com muita eficácia ao exercício de chão da entidade. Tudo fruto de trabalho intenso, comunicação em alto grau de resolução e entendimento pleno do seu corpo de componentes. Um fechamento com alma e vigor, num gabarito de sarrafo altíssimo. Tarcísio Zanon, generosamente, ofereceu um universo incrível de cores, formas e imagens. Viradouro propôs e fez um desfile enorme”.

Jaime Cezário: “Com o enredo inédito a Viradouro apresentou à Sapucaí Rosa Maria Egipcíaca. Com a suntuosidade costumeira, contou a história da primeira mulher preta a escrever um livro no Brasil. O que foi proposto pelo roteiro, foi muito bem visto aqui em fantasias e alegorias. A proposta do enredo era de realizar uma canonização popular no Templo do Samba. E utilizando uma paleta de cores, onde o vermelho foi suavizado com toques de rosa, trouxe um ar feminino de início ao fim da sua bela apresentação, emocionando a todos. Fantasias e alegorias muito acima do padrão da maioria das escolas que se apresentaram nesses dois dias de desfiles. Um ponto a ser destacado, foram os acabamentos preciosos que todas as alegorias, incluindo suas composições, apresentaram, algo que nos trouxe encantamento. Por tudo isso, merece os parabéns pelo conjunto da plástica apresentada”.

Eliane Souza: “Simplesmente, uma linda apresentação do casal! Trazendo para avenida um bailado atualizado, dinâmico e alegre, Julinho Nascimento e Rute Alves, apresentaram os gestos, passos e movimentos em uma performance potente, porém afável, na qual houve o zelo de preservá-los! Destaque para a execução do VOLEIO com elevação de perna para um toque sutil na perna de apoio, a falsa queda muito bem realizada e sua recuperação sincronizada as piruetas vigorosas. Um cruzado em deslizamento na meia ponta, com movimentos em rotação e translação, demonstrando total domínio do movimento. Na pegada mão, o sincronismo perfeito com a execução do aviãozinho da porta-bandeira, que girando com apoio de seu cavalheiro, desfraldou seu pavilhão. Nos giros do abano, nos dois sentidos, Rute exibiu sua qualidade e destreza, pela firmeza na ação. A apresentação da bandeira foi feita com cuidadoso toque pelo mestre-sala, que a seguir exibiu seu ‘riscado’, escrevendo frases coreográficas plenas de meneios, mesuras, fugas e contra-fugas, ações que Julinho domina de forma impecável. O meu encantamento ao apreciar o desempenho deste casal, acontece pela confirmação de que podemos e devemos conservar as características do bailado do mestre-sala e da porta-bandeira, atualizá-lo em conformidade com as modificações acontecidas no espaço para a dança acontecer, a indumentária do casal, o andamento da bateria e as exigências impostas pelo enredo e pelo samba enredo. Foi uma alegria imensa apreciar a performance do par. Destaco a bonita performance do segundo casal, Thiaguinho Mendonça e Amanda Poblete. E muito me alegrou que, a eternizada porta-bandeira, símbolo do samba e do carnaval carioca Squel Jorgea desfilou na escola, emprestando sua beleza e carisma ao desfile”.

Wallace Safra: “Através da visão poética da menina Rosa Courá, a comissão passa por diversos momentos de sua vida. Com movimentos precisos e uma plástica de invejar, a dupla de coreógrafos Priscilla Motta e Rodrigo Neri surpreendeu positivamente com uma apresentação arrepiante. Transições ágeis, boa dinâmica nas movimentações, encenação expressiva, integralização com o elemento coreográfico que se tornou o grande palco para realização da proposta dos coreógrafos, e um conjunto harmonioso de bailarinos são alguns dos destaques desta comissão. Excelente trabalho plástico e cênico.
Representando as possessões e feitiçarias de Rosa, a ala de passista apresentou um bom trabalho, com samba no pé e movimentos leves nas transições entre samba e performance da ala. Dinâmicos e harmoniosos, os passistas da Viradouro têm uma entrega em conjunto bem interessante. Conseguimos ver dedos e braços marcantes aplicados nos direcionamentos técnicos do diretor Valci Pelé. Forte e disciplinada, a ala desenvolve bem na avenida e mostra cada dia mais melhorias em sua evolução. Destaque para renovação e juventude à frente da ala. Bom trabalho apresentado”.

+ veja a galeria de fotos do desfile

A Unidos do Viradouro tem dois campeonatos no Grupo Especial carioca, conquistados nos anos de 1997 e 2020. Ainda registra três taças no Acesso, em 1990, 2014 e 2018, e uma na terceira divisão, de 1989.

+ o desempenho da Viradouro nos últimos seis Carnavais:


Fundação: 24/06/1946
Cores: Vermelha e Branca
Presidente de Honra: José Carlos Monassa (in memoriam) e Marcelo Calil Petrus
Presidente: Marcelo Calil Petrus Filho
Carnavalesco: Tarcísio Zanon
Diretores de Carnaval: Alex Fab e Dudu Falcão
Intérprete: Zé Paulo Sierra
Mestres de Bateria: Ciça
Rainha de Bateria: Erika Januza
Mestre-Sala e Porta-Bandeira: Julinho e Rute
Comissão de Frente: Rodrigo Negri e Priscilla Mota

(ordem de desfiles – Grupo Especial 2023)

+ domingo, 19 de fevereiro:

1º – Império Serrano (Campeão do Acesso 2022)
2º – Acadêmicos do Grande Rio
3º – Mocidade Independente de Padre Miguel
4º – Unidos da Tijuca
5º – Acadêmicos do Salgueiro
6º – Estação Primeira de Mangueira

+ segunda-feira, 20 de fevereiro:

1º – Paraíso do Tuiuti (11ª colocada do Grupo Especial 2022)
2º- Portela
3º – Unidos de Vila Isabel
4º – Imperatriz Leopoldinense
5º – Beija-Flor de Nilópolis
6º – Unidos do Viradouro

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