Carnaval/RJ

Colunista Hélio Rainho e carnavalesco Wagner Gonçalves assinam enredo para Carnaval em Nova York

Hélio Rainho e Wagner Gonçalves. Foto: Divulgação

O ano de 2020 terá um marco histórico no calendário cultural da metrópole conhecida como a “capital do mundo”. Nova York será contemplada com o primeiro desfile de uma escola de samba. Com o enredo Basquiat 60 Anos – Todo Menino é Um Rei – Sonho de Reconhecimento, Justiça e Desenvolvimento, o Projeto Carnaval do Povo homenageará o pintor afro-americano Jean-Michel Basquiat (1960-1988), que completaria 60 anos em 2020. O enredo tem roteiro e pesquisa do colunista do SRzd Carnaval Hélio Ricardo Rainho, concepção plástica e direção artística de Wagner Gonçalves e supervisão geral de Caco Oliveira.

Logo oficial do enredo sobre Basquiat

O Projeto Carnaval do Povo é uma idealização de Carlos de Oliveira, fundador e diretor executivo da New York Samba School e do Brazilian Council of Samba (Conselho Brasileiro de Samba), uma organização sem fins lucrativos criada em abril de 2016, dedicada a educar crianças e adultos sobre a cultura brasileira. Nascido e criado no Rio de Janeiro, Carlos é músico, percussionista, escritor, produtor e organizador comunitário, e vive há 20 anos em Nova York integrando a cultura afro-brasileira, particularmente o samba, a outras vertentes culturais de matriz africana nos Estados Unidos.

Carlos de Oliveira mora em Nova York há 20 anos e é idealizador do Projeto / Foto: Divulgação

“Nova York é uma cidade plural, e nessa pluralidade encontram-se muitas comunidades afrodescendentes. Como músico, pude perceber que havia uma imensa diversidade de ritmos e culturas com as quais o samba poderia se conectar e formar uma voz de resistência das nossas tradições. O Projeto Carnaval do Povo quer mostrar a generosidade do samba brasileiro em dialogar com outros ritmos, outros povos negros latinos, africanos e até europeus. A comunidade afro-americana é imensa, e queremos registrar isso nessa grande festa!”, afirmou Caco, como é conhecido pelos amigos.

Logo do Brazilian Council on Samba, que promove o evento

Caco teve a ideia de realizar um enredo que pudesse ter o lastro da ONU, que proclamou o período de 2015 a 2024 como a United Nations International Decade for People of African Descent(Década Internacional das Nações Unidas para os Povos de Descendência Africana), promovendo ações de combate ao racismo e a toda forma de desigualdade e descaso social com a população negra. Ao conhecer os textos de Hélio Rainho e suas análises de sinopses de enredos para o site SRzd, Caco procurou o colunista e o convidou para atuar no evento. Hélio já tinha uma ideia de enredo sobre Basquiat, e vibrou com a possibilidade de homenagear o artista em sua terra natal:

“Tenho uma ideia fixa com Basquiat. Não sei explicar esse mistério. Ele foi um grande artista da efervescência da cultura pop dos anos 80, o auge da minha juventude. Mas foi na minha maturidade que surgiu esse fascínio. Quando fui a Nova York há quatro anos, visitei as galerias com obras dele e me emocionei muito. Passei a ler tudo sobre ele, estudá-lo e montar uma bibliografia. Minha dissertação de mestrado tem referências dele. Fui um dos cinco primeiros visitantes da exposição realizada no Rio, em 2019, no CCBB, sobre ele. Quando Caco me falou sobre um carnaval com temática sobre afro-americanos em Nova York, imediatamente propus uma associação entre a biografia de luta e afirmação de Basquiat com o tema da ONU. Ele era novaiorquino, traduziu a arte das ruas para as galerias mais importantes do cenário elitizado e branco de sua cidade. Suas pinturas tinham grafite, poesia, musicalidade e discurso afirmativo do povo preto. Um gênio!”, relatou Rainho.

Jean-Michel Basquiat / Foto: Marion Busch

Convidado, nos últimos anos, por alguns carnavalescos para trabalhar como enredista, Hélio imediatamente lembrou-se de um deles, com quem já vinha há algum tempo fazendo estudos sobre afro-futurismo, além de ser também um apaixonado pela obra de Jean-Michel Basquiat. Assim surgiu a parceria com Wagner Gonçalves, imediatamente aceito por Caco Oliveira, para realizar a concepção plástica e a idealização artística do enredo. “Não tinha dúvidas do trabalho brilhante que Wagner apresentaria. Ele é um dos maiores talentos do nosso carnaval, passou por grandes escolas, é um campeão. Lamenta-se que a avenida esteja abrindo mão de seu talento nos últimos anos. Os genuínos fazem falta. Wagner tinha tudo a ver com esse enredo sobre Basquiat. Fez coisas incríveis! Transcendeu o texto sinóptico com sua inspiração. Fez uma arte maravilhosa e emocionante”, revelou Hélio.

E tinha tudo a ver mesmo. Além de ter participado de trabalhos de curadoria artística e estar envolvido com projetos relacionados a exposições e artes plásticas, Wagner já havia feito os cenários e figurinos da peça teatral In the Place – Um Lugar Para Estar, em cartaz na Alemanha e no Brasil em 2013, justamente sobre a vida do pintor americano. O premiado carnavalesco, que foi campeão da Série A com a Inocentes de Belfort Roxo em 2012 apresentando o enredo Corumbá– Ópera Tupi Guaikuru, ficou fascinado com a ideia de conceber um trabalho baseado na estética do homenageado:

“É um privilegio realizar esse projeto. Estou maravilhado com a possibilidade de apresentar meu primeiro trabalho numa cidade que é considerada a capital cultural do mundo. Além disso, falar de Basquiat e da representatividade de um artista negro neste momento de discussões tão acaloradas é um grande privilegio. A arte de Basquiat era única, conceitual, arrojada. A escola de samba é assim também, e a junção dessas duas forças – o nosso samba e a arte de Basquiat – é a afirmação da cultura das ruas, das vozes negras defendendo sua preservação!”, disse Wagner, que já desenvolveu toda a criação plástica para o enredo.

O comitê executivo do Projeto Carnaval do Povo reunirá, no próximo dia 20 de setembro, em Nova York, empresários e representantes das comunidades negras, latinas e caribenhas situadas na região, promovendo estratégias que viabilizem a execução plena do projeto. Na oportunidade estarão presentes o carnavalesco Wagner Gonçalves e a porta-bandeira Selminha Sorriso para palestrarem sobre suas vivências e saberes no carnaval. O projeto prevê, ainda, um encontro posterior  do criador do enredo Hélio Rainho com acadêmicos e pesquisadores para abordar aspectos significativos da escolha de Basquiat como tema.

”Queremos fomentar um aspecto fundamental para as comunidades afrodescendentes nas Américas: a unidade! A força de nossa unidade, a integração de nossas forças, é o que nos garante resistir e nos preservar!”, afirmou Caco.

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