Artigo: O Carnaval do Rio de Janeiro pede socorro!

Jorge Castanheira é presidente da Liesa. Foto: Divulgação

Começo este texto por uma analogia para que haja um melhor entendimento do momento que o Carnaval do Rio de Janeiro está vivendo. Os jogadores da seleção brasileira das copas de 1958 (Suécia) e 1962 (Chile) sempre diziam que havia um personagem fundamental para aquelas conquistas que não entrava em campo, mas que também era craque do escrete nacional.

Eles se referiam ao chefe da delegação brasileira naquelas duas copas, Paulo Machado de Carvalho, conhecido como o “Marechal da Vitória”. O dirigente conquistou esse status junto aos jogadores por sua liderança, presteza, e, acima de tudo, suas assertivas no comando da delegação. O Brasil vinha de dois terríveis fracassos e para retratar aquele momento de baixa estima, o lendário Nelson Rodrigues cunhou a famosa expressão “complexo de vira-lata”.

Paulo Machado de Carvalho conseguiu fazer o grupo superar essa insegurança e de forma natural o potencial dos nossos atletas aflorou. O resto da história todos conhecem. O Carnaval do Rio acaba de perder o seu Marechal da Vitória.

Antes que surja uma enxurrada de críticas ao Carnaval carioca, muitas delas justíssimas, é preciso fazer alguns esclarecimentos. O poeta e compositor Nei Lopes, uma das cabeças mais privilegiadas da história deste país, costuma dizer que o desfile das escolas de samba é a forma que o povo do Rio de Janeiro tem para contar as suas próprias histórias e também de outros povos sob a ótica carioca. Ousado, eu diria até mais. Para mim, é a forma que o povo brasileiro tem para contar as suas histórias ao mundo.

O cinema é a forma que os americanos têm para contar as suas histórias, o teatro foi a forma dos gregos, a literatura é a forma dos ingleses, o circo foi a forma dos romanos/italianos, a música clássica pelos austríacos, a percussão pelos africanos(…) No Brasil, a nossa forma é o desfile das escolas de samba.

Lembrando que o cinema é a forma que os americanos têm para contar as histórias deles, o teatro foi a forma dos gregos, a literatura é a forma dos ingleses, o circo foi a forma dos romanos/italianos, a música clássica pelos austríacos, a percussão pelos africanos, e tantas outras formas que os povos têm para manifestarem suas alegrias, tristezas, euforias, angústias e decepções. No Brasil, a nossa forma é o desfile das escolas de samba.

Se esse modo de manifestação cultural está centrado numa plataforma criminosa, ou se deve ou não receber dinheiro público, são debates que precisam ser enfrentados. Mas deixar de existir, jamais! É a nossa identidade.

O Carnaval do Rio de Janeiro saiu dos trilhos. Os motivos são muitos, mas especialmente a partir do desfile de 2017, quando aconteceram os terríveis acidentes na pista da Sapucaí. A assertividade, tão comum ao evento desde 1985, parece ter se afastado do cenário.

As lideranças superiores parecem não perceber que há um país novo, um mundo novo ao nosso redor. Medidas e posturas que funcionaram no passado, não funcionam mais. Um dos soldados mais intensos na busca de um novo caminho não estará mais no comando da tropa de foliões. O nosso Marechal da Vitória, Jorge Castanheira, passou o bastão.

Tudo por conta dos desacertos que passaram a ser rotineiros, tanto na Liesa, quando na Liga da série A. A nuvem de inquietações engoliu Castanheira e seus aliados mais próximos. Perde o Carnaval e perde a cidade do Rio de Janeiro. O futuro deste evento é absolutamente incerto.

Castanheira conquistou a delicada função se ser o algodão entre os cristais. Habilidoso, soube transitar, como pêndulo entre os interesses difusos e, sem ele, a pergunta é: Quem seria capaz de ser o gerente desta operação complexa?

A nossa forma de nos mostrarmos ao mundo está sob ameaça, e isso atinge a todos, amantes ou não do Carnaval. As forças deste país e as novas lideranças precisam se mobilizar, pois se avizinha mais uma perda significativa ao nosso rincão. Para os foliões diários das nossas escolas de samba fica um brutal sentimento de ausência. Jamais esqueceremos o nosso “Marechal da Vitória”. Valeu, Jorginho!

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