Carnaval/RJ

As escolas de samba e o Carnaval de 2021, por Rachel Valença

Desfile da Viradouro de 2020; escola foi a campeã do Carnaval. Foto: Riotur

Não sou negacionista. Levo tão a sério a necessidade de distanciamento social como forma de controle da disseminação do coronavírus que estou em isolamento radical desde março.

Dito isso, e com todo o respeito às vítimas da Covid-19, às suas famílias e aos bravos profissionais da área de saúde, que enfrentam não apenas uma pandemia, mas a vergonhosa roubalheira que lhes dificulta as condições de trabalho, externo aqui minha opinião e lanço um desafio à comunidade do samba, que tem se mostrado capaz de reinventar suas formas de sobrevivência e de expressão.

Sou cultora e defensora do samba o ano inteiro, não apenas no carnaval. Escolas de samba, como diz Luiz Antônio Simas, existem e por isso desfilam. Mas no carnaval, há quase um século, é a elas que cabe, em meio a tantas outras formas de brincar, a tradição de levar o samba para as ruas em forma de desfile. Como venho pontuando há anos, não se trata apenas de um espetáculo: mais do que isso, trata-se de um ritual de cultura urbana que, graças aos esforços de gente como Ismael Silva, Paulo da Portela, Cartola, Eloy Antero Dias e tantos outros, conseguiu se transformar no que hoje é: o grande espetáculo que encanta o mundo, que atrai turistas, que movimenta o mercado de trabalho, gerando receita para o município.

Apesar disso, apesar dos enormes benefícios que trazem à sociedade, ainda há quem torça o nariz para as escolas de samba. Qual a razão disso? O preconceito, esse mal terrível que não se consegue banir de nossa sociedade. Uma manifestação cultural vinda do povo, do povo negro que é maioria em nossa cidade, ainda não é tolerada por parte da população. O caminho para mudar isso será longo e sofrido, mas não desistimos. O mais grave: o poder público, dependendo da veneta do burocrata da vez, pode se dar ao luxo não só de não ajudar (o que seria seu papel, dada a importância da festa), mas de ser contra, de perseguir e prejudicar as escolas de samba, cortando subsídios, inviabilizando os populares ensaios técnicos, ignorando as dificuldades enfrentadas.

O Rio de Janeiro é a capital mundial do carnaval. Não usar isso a nosso favor é incompreensível. Ser prefeito desta cidade é ter de conviver com isso. Não precisamos de um prefeito que goste de samba e de carnaval; precisamos de um prefeito que tenha suficiente discernimento para tirar partido disso.

Agora, com a pandemia, tudo ficou mais fácil para quem não quer nem ouvir falar de carnaval. Já não é necessário invocar as creches e o leite das crianças. Carnaval é aglomeração, não pode. Tudo pode: pode ônibus lotado, trem lotado, metrô lotado… Afinal, coitadinhos dos empresários de transporte público, não podem ter prejuízo aumentando o número de carros! Bares cheios? Pode. Futebol? Pode. Shopping aberto? Pode. Mas desfile de escola de samba? Nem pensar… Afinal, elas não são atividades essenciais.

Só que não. Sem falar na quantidade de pessoas que sustentam suas famílias no ciclo econômico do carnaval, para nós, sambistas, manter viva a tradição é um dever, uma prioridade. Tradição que resistiu ao fim da Praça Onze, à parda do espaço da Candelária, ao descaso das autoridades, a todas as adversidades. Vêm-me à memória cenas emocionantes que presenciei na Avenida: no ano em que chuvas e enchentes, pouco antes do carnaval, devastaram o Morro da Formiga, causando mortes e grandes prejuízos, inviabilizando o desfile da Império da Tijuca, a brava escola surpreendeu a todos passando na Avenida com um surdo, que tocado pausadamente simbolizava o luto, e com sua bandeira. Nada mais do que isso. Não deixou de desfilar: saiu como foi possível. Foi a mais escola mais aplaudida da noite.

Se querem acabar com o samba, que tenham esse trabalho. Nós é que não vamos facilitar em nada a tarefa. Que a Covid-19 não lhes sirva de pretexto. Esse é o humilde desafio que lanço: que as escolas desfilem em 2021 como for possível, mas não deixem de desfilar. E esse “como for possível” deverá ser objeto de discussão, com ideias as mais loucas sendo debatidas e analisadas. Só com um carro, o abre-alas? Com o abre-alas e mais um carro? Com alas de no máximo trinta componentes? Com apenas um casal de mestre-sala e porta-bandeira? Com dez baianas? Com todos os componentes usando máscaras, inclusive a bateria? Com reedição de enredos, para não “queimar” boas ideias dos carnavalescos? Com público drasticamente reduzido?

São questões que tenho ouvido. Não tenho as respostas. Mas tenho uma certeza: não podemos nos conformar. O samba desta cidade é sinônimo de resistência. Se nossas entidades representativas têm se revelado incapazes de liderar, no momento, essa resistência, cabe a nós sambistas fazê-lo. Para não deixar vazio em 2021 o nosso espaço duramente conquistado na Avenida Marquês de Sapucaí. O chão da Praça Onze lá está, à nossa espera.










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