Recanto do Beija-flor comemora 12 anos de criação e apresenta sinopse para o Carnaval Virtual 2020

Fundada em 03 de janeiro de 2008, a Recanto do Beija-flor planeja um desfile de alto nível no Carnaval Virtual 2020. Para isso, a escola confiou às suas carnavalescas toda a idealização do enredo. “Deuses oleiros, homens demiurgos” foi concebido por Claudia Cardoso, mantida dos dois últimos carnavais, e Milla Cardoso, que se juntou esse ano à escola, e teve o texto escrito pelo historiador André Dubois.

À escola também se uniu o designer Glaudenes Mesquita, responsável pela arte de apresentação do enredo, a convite do diretor de carnaval Alberto dos Santos de Lemos e do presidente Fabricio Smiderle.

O samba enredo será encomendado

 

Deuses oleiros, homens demiurgos

Em 2020 a Recanto do Beija-flor traz para o público uma curadoria de obras de arte feitas a partir do barro. Expostos, em quadros que mostram o barro como matéria prima de criações ligadas ao próprio conceito de criação, estão produtos da criatividade brasileira, ancestral e atemporal.

 

Quadro 1: Barro, matéria prima do homem

O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente. (Genesis 2: 7)

Nas cosmogonias cristã e ioruba, nós humanos surgimos do barro. O que há de valor na criação artística do homem é o “sopro de vida” que Deus sopra sobre ele. Para a mitologia cristã somos pouco mais que barro nas mãos do Senhor. Um Deus artesão, um criador oleiro! De acordo com o cristianismo depende de nós sermos vasos de honra ou apenas bacias de lavagem, seguindo os preceitos bíblicos contidos em 2 Coríntios 4; 7: “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós.”, e em Eclesiastes 12; 7: “E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu”.

Na cosmogonia Ioruba, dos encontros de Brasil e Áfricas no mar tenebroso da escravidão, o homem também é feito do barro. Segundo a narrativa, o senhor supremo Olodumaré tirou de Obatalá a oportunidade de ser o criador do mundo após ter sido embriagado por Exu com um vinho de palmeira, restando-lhe a tarefa de criar a humanidade a partir do barro, enquanto o próprio Olodumaré daria o sopro da vida aos indivíduos. As narrativas se encontram. O pó cristão, o barro ioruba. O sopro do Deus único, com o sopro do deus supremo.

 

Quadro 2: Barro, matéria prima do mundo

O pensamento primitivo explica tudo com uma teoria totalizante. (Lévi-Strauss)

A cultura marajoara conta que no início dos tempos o mundo era uma grande bola de água inabitada, atentamente observado por Auí, uma divindade primordial transparente. A partir do barro e da lama que ficavam na profundeza das águas, surgiu o Girador, outro ser fantástico, que tinha a missão de construir sete cidades sobre as águas para servir a Auí. Assim o Girador começou o seu trabalho, e outros seres foram saindo da água, constituindo o povo de Auí.

Quando o Girador terminou o seu trabalho, e todos os seres estavam vivendo em harmonia, Auí, guiado por sua imensa curiosidade, tocou o fundo das águas do mundo, e ao encostar no sagrado material do que o Girador foi criado, houve um desequilíbrio na terra. As partes sólidas que estavam no fundo das águas subiram, criando os continentes atuais e libertando a energia espiritual de Anhangá, representante dos males causados à natureza. As cidades de Auí submergiram com seus entes aquáticos, transformados em Caruanas, entidades com a missão de proteger e curar o mundo novo e seus habitantes, inclusive os homens.

A civilização marajoara vê o barro como elemento fundamental para a criação do mundo. Os índios de Marajó produziram objetos artísticos de qualidade estética imensurável, dentre os anos 400 e 1400 d.C. As criações mais ricas em ornamentos eram usadas em complexos rituais funerários. Os índios adornavam suas obras com imagens que referem como inspiradas nas marcas das ondas primordiais no Girador.

 

Quadro 3: Barro, matéria prima da esperança

“Cabe à mulher a cerâmica, pois a argila de que são feitos os potes é fêmea como a terra e, em outras palavras, tem alma de mulheres” (Lévi-Strauss).

A paisagem do Vale do Jequitinhonha, também conhecido como “Vale da Fome” ou “Vale da Morte” assemelha-se com as “terras secas” do Sertão Nordestino em aspectos naturais e sociais. O vale já foi conhecido pelas pedras preciosas, mas hoje sua maior riqueza advém da argila. No vale, tudo é feito do barro: as casas, os fornos, as panelas, as tintas e até a proteção das casas. A região vem sendo marcada por processos migratórios que fazem as mulheres serem maioria absoluta dos adultos da região. Seus esposos e filhos migram para outras regiões em busca de trabalho e a maioria não volta. Lá as mulheres resistem, e transformam dificuldades em esperança por meio da arte coletiva.

A arte que surgiu fala de forno, ventre e chão. A matéria de que é feita a cerâmica tem nome feminino: “Mãe Terra, Avó da Argila, Senhora da Argila e dos potes de barro”. As ceramistas relatam que “da terra seca donde não nasce nem um pau de flor, começam a brotar belas bonecas de barro”. As viúvas da seca dão vida às suas bonecas. Todas são batizadas com nomes e com uma biografia.

A insistência nas “bonecas noivas” indica esperança no futuro. Os homens vão ao mundo, às guerras, enquanto as mulheres cuidam da tessitura do tempo do mundo. As bonecas noivas com véu, grinalda e ramo de flores sintetizam a vida dessas mulheres, suas criações, recriações, encenações de seus dramas, vitórias e derrotas. No Vale da Morte, nascem e renascem vidas.

 

Quadro 4: Barro, matéria prima do cotidiano

“Eu crio pela cadência”(Mestre Vitalino)

Mestre Vitalino também teve como inspiração para sua arte mãos femininas. Sua mãe o incentivava, desde criança, a brincar com o barro. Do lúdico universo infantil, Vitalino transmutou-se em artista de uma gente. Sua arte figurativa em barro encena temas da vida sertaneja: a seca, a religião, os processos migratórios, o crime, a lei. Seu expressionismo altera a realidade para dar ênfase, com mais cores, à sua própria genialidade e seu olhar singular.

Vitalino sintetiza a arte popular do Alto do Moura, em Caruaru. Foi mestre e professor de outros artistas que eternizariam a unicidade de seu estilo. Em vida sempre fez questão de lembrar a importância da coletividade para sua obra, mencionando a importância de oleiros como Zé Caboclo e Manuel Eudócio para sua própria arte. Neste sentido os futuros continuadores de sua obra não fazem cópias, mas eternizam a estética do mestre.

Vitalino se recusava a produzir sua cerâmica sem música. Criava suas peças conforme a cadência dos sons sertanejos. Talvez venha da música, da convergência para com seu povo, sua eternidade coletiva, sua atemporalidade artística. Uma das figuras mais reproduzidas pelo mestre do Sertão é a do boi. O boi de Vitalino é uma entidade misteriosa, reproduzido com triunfante arcaísmo.

 

Quadro 5: Barro, matéria prima do espaço museal

“A obra de arte perdura pela teimosia do homem, desde o tempo das cavernas” (Francisco Brennand).

Foi com a lógica do princípio organizador do cosmos que Brennand teve sua grande idéia: transformar a indústria ceramista de seu pai em Recife numa academia de arte oleira. O lugar encontrava-se em estado caótico, era uma fábrica em ruínas. Foi um processo de reconstrução de um mundo de infância. A criatura transmuta-se em criador.

A Fábrica virou o templo de Brennand e segundo suas próprias palavras “era necessário habitar esse templo”. Habitá-lo com sua arte, com suas criações. O artista faz-se um deus criador e organiza um cosmo com suas vívidas criações. O velho forno é o coração da fábrica, o lugar da transmutação da matéria. A arte é uma gestação, e o forno é o útero. O mundo volta a funcionar.

No templo do demiurgo Brennand ecoam as potências divinas e humanas da criação. Dessa fábrica útero emerge uma arte repleta de sexualidade e seu resultado, a criação! O parto envolve dor e sangue. A arte de Brennand insiste tautologicamente na simbologia da criação. Ovos, genitálias masculinas e femininas lembram-nos do início, da criação, do gênesis. Metalinguagem do próprio ato de criar.

 

Encerramento

O barro proporcionou ao homem se aproximar dos deuses. A arte é criação, é a divinização do homem, na medida em que suas obras vão além da simples representação visual e atingem significados ímpares. E o barro, logo um material frágil e nem um pouco raro, é o mais adequado nessa missão. Ainda que quebre, volta ao solo, ao primitivo.

Assim é o universo, uma eterna transformação de materiais. Por esse prisma podemos enxergar o artesanato brasileiro feito do barro uma reprodução do universo. Do barro, material das criações e recriações, os demiurgos levam ao forno sua nova criação. Das cinzas, emerge um lindo beija-flor, concebido como fênix, que do seu Recanto parte para novos voos. Evoé, o samba não pode parar.

 

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