LUPA Carnaval: o triunfo das brasilidades na segunda noite de desfiles do Grupo de Acesso Virtual 2020

A segunda noite de desfiles do Grupo de Acesso do Carnaval Virtual realizada neste sábado foi marcada por memoráveis apresentações e pela exaltação aos temas da cultura nacional. A série de análises elaboradas pelos integrantes da Liga Universitária de Pesquisadores e Artistas de Carnaval da UFRJ (LUPA Carnaval) hoje se debruça nessas brasilidades que cruzaram as telas virtuais.

Com o enredo “Histórias e Dores no Cais do Valongo”, a escola virtual Valongo abriu a noite de desfiles com uma grande apresentação, especialmente pelo impacto da comissão de frente e pela linda exibição do casal de mestre-sala e porta-bandeira e seus guardiões, que se destacaram na qualidade dos figurinos e na coreografia. Em seguida, a Império da Elizabete Rainha defendeu o tema “Do caboclo a curandeira, a Umbanda é genuinamente brasileira”, num desfile que teve como destaque o desempenho do samba-enredo e da própria narrativa do enredo.

Terceira a desfilar, a Corações Unidos brilhou na pista virtual cantando o enredo “Ajuremadas, salve as Princesas da Encantaria”. Além da originalidade da pesquisa sobre as três princesas turcas que se encantaram, a narrativa recebeu um tratamento estético à altura, com uma linda escala cromática utilizada nas fantasias e nos belíssimos segundo e terceiro carro. Na sequência, a Império da Carlota realizou outro belíssimo desfile com o enredo “Banho de Ouro”, que apesar do tratamento burocrático na narrativa e de certa repetição no estilo das fantasias, apresentou um exuberante conjunto visual.

Brotos da Flor, desfile de 2020.

A passarela virtual seria palco então para uma sequência de dois desfiles arrebatadores e irretocáveis. A Brotos da Flor cantou para um dos maiores nomes do carnaval brasileiro, Arlindo Rodrigues, em “Brasilianamente: Arlindo dos Arlequins”. Do bom gosto na combinação de cores à simplicidade das formas, o mais deslumbrante conjunto visual da noite também contou com um maravilhoso desempenho musical, coroando a apresentação que, assim como a arte de seu grande homenageado, se fez gloriosa na avenida.

A próxima avalanche ficaria a cargo da Apoteose, que com o enredo “Dentro do mar tem rio, dentro de mim tem o quê?” realizou a mais grandiosa de todas as apresentações. Mas o gigantismo das alegorias não comprometeu o perfeito acabamento, também notado nas fantasias, fazendo do conjunto visual do desfile o mais colorido e impactante. Na companhia dele, o conjunto musical contava apenas com a melhor obra da noite: um esplendoroso samba para um irrepreensível desfile.

Apoteose, desfile de 2020.

Sétima escola a desfilar, a Caprichosos do Boa Vista defendeu o enredo “De sofridas mãos negras: Abayomis, é resistência, é cultura, é símbolo de um povo”. A riquíssima e politizada narrativa foi bem representada com o conjunto visual que melhor explorou o recurso dos movimentos, tanto nas alas quanto nas alegorias e até na comissão de frente, que trazia a formação do continente africano. Seguindo na exaltação das negritudes, a Arte Yorubá cantou o belíssimo enredo “O Opaxorô de Oxalá” através de uma grandiosa apresentação visual, onde o uso das cores fortes e formas limpas foram destaques muito positivos.

A Colorados do Samba foi a nona escola a se apresentar, narrando “O Cio da Terra – O que se plantou, deu; e o que não deu, dará!”. A narrativa do enredo não foi tão bem defendida quanto poderia na leitura visual do belo desfile, que teve na comissão de frente seu ponto alto. Em seguida, a Estrela Guia realizou um deslumbrante desfile com o autêntico enredo “Chiclete com Banana”. A originalidade da proposta discursiva, uma louvação inteligente às brasilidades, foi maravilhosamente representada pelo primoroso conjunto de fantasias, o melhor da noite. Por fim, o excelente rendimento do divertido samba-enredo consagrou a apresentação como uma das mais competentes.

Com um desenvolvimento burocrático do enredo e altos e baixos no conjunto estético, o desfile da escola Malandros versando sobre o “Tarot” teve como destaque positivo a interessante apresentação de sua comissão de frente. Já a Império do Progresso, décima segunda escola a desfilar, realizou uma belíssima exibição na defesa do enredo “Tupinambá”. A premissa indigenista contou com boas soluções visuais, especialmente em fantasias, e a qualidade do samba-enredo aliada à sua excelente condução conferiu ao conjunto musical o protagonismo absoluto de um competente desfile.

Império do Progresso, desfile de 2020.

Penúltima escola da noite, a Império de Órion fez um passeio pela história do tradicional Império da Tijuca através de seus carnavais com o enredo “O Primeiro Império na Corte do Samba”. Com uma apresentação regular, o ponto alto foi a passagem da rainha de bateria e sua fantasia crítica ao “peso das bandeiras” no carnaval. E encerrando a noite, o enredo “Você usaria a coroa?” embalou a escola Joias da Coroa, que ainda abordaria as várias demonstrações de poder ao longo da História. Em uma exibição levemente abaixo das demais visual e musicalmente, a narrativa promissora e instigante contou com soluções pouco carnavalizadas no desfile.

Em suma, o Brasil desfilou esta noite. O Valongo, a Umbanda, as Encantarias. Nas exaltações ao rei negro e ao rei dos arlequins. Cantando as crendices das águas, as negritudes e o chiclete com banana. Nosso tupinambá e nosso imperador negro do samba e se encontraram e celebraram juntos! Numa disputa de altíssimo nível, todos os discursos venceram pois versaram sobre as nossas identidades. Na folia virtual de hoje, o triunfo maior foi o da brasilidade.

Texto elaborado coletivamente pelos pesquisadores da LUPA Carnaval (@lupacarnaval):

Ayrã de Oliveira Ribeiro (Licenciando em Letras pela UFJF, professor de Interpretação de Texto e Literatura no GARRA Cursinho / Juiz de Fora – MG e pesquisador-artista da LUPA Carnaval)

Gabriel Henrique Caldas Pinheiro (Bacharel e Licenciado em História pela UFRJ, professor, idealizador e pesquisador-artista da LUPA Carnaval)

Silvia Maria Monteiro Trotta (Bacharela e Licenciada em História pela UFRJ, integrante da Comissão de Carnaval da Império de Petrópolis e pesquisadora-artista da LUPA Carnaval)

Todos os desfiles virtuais das duas primeiras noites do Grupo de Acesso já estão disponíveis no site do Carnaval Virtual: http://www.carnavalvirtual.com.br/site/desfiles/desfiles-grupo-de-acesso-carnaval-2020/

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