Conheça o enredo dos Imperiais do Samba para o Carnaval Virtual 2020

Os Imperiais do Samba abrem os trabalhos de divulgação do Carnaval Virtual 2020 divulgando seu enredo  “Atlântida Amazônica – o Reino Sagrado de Ypupiara”.

A escola terminou o Carnaval Virtual 2019 em 4º lugar, e manteve sua equipe para o Carnaval Virtual 2020.

 

ATLÂNTIDA AMAZÔNICA – O REINO SAGRADO DE YPUPIARA

Texto e Pesquisa: Raphael Soares

SETOR I – O FALSO MESSIAS E O APOCALIPSE INDÍGENA

Algo trepida, estala nos galhos, nas altas copas centenárias que cortejam o céu.

Algo fervilha no guaporé, no igarapé das raízes aéreas que se erguem para respirar.

O calor que arde e chamusca o chão da floresta não é mais o calor que vem do sol que desliza na linha do Equador. Não é também do horizonte dourado que amanhece desde os Andes.

O calor queima sem dó e provoca a dor. A alma da mata está em chamas!

A chuva abundante, em sua visita diária, cai e evapora no solo. As lágrimas de Tupã, nascidas dos divinos olhos ao vislumbrarem a destruição, não é capaz de abrasar a febre criada pela humanidade no santuário verdejante da América.

Avançam por sobre as fronteiras… avançam em labaredas o fogo, a morte e as cinzas. Fumaça escura sufoca o ar. Os rios correm para o mar como sangue a jorrar de uma ferida profunda, rasgada por mãos humanas.

O pasto cresce… o lucro engorda e o “bom rebanho” não percebe o que se faz. E segue o gado manso devorando seu próprio destino: uma floresta sucumbe por um pedaço de pasto bovino. Tribos são dizimadas, civilizadamente violentadas, e as que resistem sofrem com seu lar demarcado pela cobiça. Há pior caneta tinteira do que aquela que risca limites, fronteiras nas terras onde um dia a própria vida quis morar?

Onde viviam os nativos, tilintam depósitos de ossos. Ossadas silenciosas dos que morreram pelas doenças estrangeiras ou pela escravidão.

As pestes adoecem toda a região. Não há remédio para sanar o que adoece essa terra?

A fera do mal foi libertada e ela é ditadora. Possui voraz autoridade, poder e um trono. Rosna e se impõe sobre “toda tribo, e povo, e língua, e nação”.

A fauna é violada com a volúpia dos filhos de Sodoma e Gomorra. Todos os animais, todas as peles e carnes são produtos exportados ao mundo que fecha os olhos para o que acontece.

A flora é dilacerada. Folhas pirateadas, madeiras roubadas, solo seco….a morte percorre o chão.

O uirapuru não canta mais… nenhum pássaro canta mais!

O som que se ouve é do estalo de chamas. O ronco da serra cortando os troncos das centenárias árvores se sobrepõe ao ronco dos animais em sofrimento.

O apocalipse crava chagas na floresta!

O falso messias caminha na terra!

 

SETOR II – O VERDADEIRO MITO QUE RASTEJA FORA DA LENDA: YPUPIARA

Mas mesmo na desolação é possível se fecundar a esperança…

A lenda dos bichos que vivem no mundo encantado do fundo dos rios está presente no imaginário dos povos da floresta amazônica. Nesse universo misterioso, de potências espirituais e seres aquáticos encantados, vive Ypupiara, ser gigantesco, misto de homem e de peixe, entidade protetora da vida no reino das águas. Há temor e respeito na boca que fala, nos olhos que veem e nos ouvidos que ouvem o que se sussurra nas margens da ribeira. Algo vigia em silêncio nas profundezas do rio-mar…

A destruição da mata, a pesca predatória dos peixes, a ameaça e a matança de animais, porém, despertam aquele que não deveria acordar de seu sono. A criatura, que adormecia em paz na mitológica Atlântida verdejante existente nas profundezas dos rios da Amazônia, se eleva até a superfície fazendo explodirem as águas. Os olhos rebrilham diante da efervescente realidade. Rasteja o verdadeiro mito para fora das lendas, para fora das águas. O ser humano vira então a sua caça.

Os homens não teriam mais chances!

Ypupiara está entre nós e vem resgatar todos os bichos convocando outras feras para o seu auxílio.

O mundo animal se põe de pé!

 

SETOR III – A PAJELANÇA E A FALANGE DA MÃE D´ÁGUA

A fúria ambiciosa do branco se choca com a fúria justiceira de Ypupiara. Sangra a mata, sangram os animais e sangrará também a humanidade.

Para que o desequilíbrio não chegue a um ponto irreversível, e para acalmar a fúria de Ypupiara, os pajés de toda a região se unem para evocar as energias da floresta e todos os seres encantados.

As lágrimas devotas que rolam dos rostos ameríndios se misturam a cada gota de rio-mar e chegam ao coração da Mãe d’Água. Choram homens onde e quando também choram as águas.

Karuanas, Yawira, Yaras, a Fera de Fogo, Naiá, a flor das águas, o sedutor Boto Rosa e Unhamangará vão surgindo por trás de cada tronco, folhagem e galho. Farfalham as folhas tombadas na terra, pois se erguem, um a um, os senhores do chão!

Os “seguidores da luz”, iniciantes feiticeiros, fazem a dança dos espíritos para invocar Moangá, misterioso filho do sol e primeiro pajé de toda existência. Ele revelará o segredo absoluto do mundo sobrenatural. Moangá conhece e reconhece a luz e a escuridão presente em tudo que há. Ao som de flautas de bambu, as tribos se pintam de urucum e dançam em círculo para invocá-lo.

E eis que a imensa coroa de penas emerge do fundo das águas, junto com todos os seres sobrenaturais.

E eis que o maracá ruge em um som ancestral para combater a destruição da Amazônia e acalmar a ira de Ypupiara. Com o poderoso potá (sopro mágico) e a força dos protetores karuanas, o grande xamã vence a luta contra o mal, trazendo a harmonia e o equilíbrio de volta.  As aldeias celebram dançando à vitória. Rasteja novamente Ypupiara. Agora, retrocede às profundezas aquáticas voltando ao seu descanso mitológico na Atlântida Amazônica.

O rio da vida segue em seu curso.

 

SETOR IV – NOSOKEN: A MALOCA DO MUNDO

O equilíbrio retorna ao caos.
A terra abrasou…
A ferida estancou…
A fúria cessou…

No coração verdejante do mundo, todas as tribos, como se fossem uma única legião, dançam a redenção. Ao som de tamurás, flautas e cânticos sagrados, os mais velhos ingerem o Ayhuasca e consagram o espírito de Ypuriara, pedindo a eterna proteção em sua silenciosa vigília.

A floresta ganha um novo começo. Os animais regressam ao seu habitat natural e o manto da vida novamente é tecido em cada galho, folha, tronco e pata de animal. Na memória da mata, o mito do Nosoken, floresta encantada, refloresce.

Nosoken… palavra bendita que traduz o paraíso de entidades mágicas que atuam com as forças cósmicas na evolução da obra de criação do mundo.

A Amazônia segue então, desde sempre e para sempre, como a maior reserva biológica do planeta, como a grande “Maloca do Mundo”, e a maior esperança de que a humanidade regenere sua consciência ecológica.

A mata rebrilha no verde selvagem de um verde esperança!

 

INFORMAÇÕES DA DISPUTA DE SAMBA

– Em Breve

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