Livre para disputar a presidência: 1989 marcou ‘estreia’ de Lula; relembre campanha histórica

Coro de artistas em 1989. Foto: Reprodução do YouTube

Aos 75 anos, Luis Inácio Lula da Silva (PT) pode disputar, em 2022, sua sexta eleição presidencial no Brasil.

A presença deste recordista, quando o assunto é a corrida pelo Palácio do Planalto, se tornou possível após decisão do Supremo Tribunal Federal, desta quinta-feira (15), quando por 8 votos a 3, a Corte decidiu pela anulação das condenações de Lula no âmbito da Operação Lava Jato, por considerar que a 13ª Vara Federal de Curitiba, comandada na época pelo ex-ministro da Justiça de Jair Bolsonaro (sem partido), Sergio Moro, não era o Foro competente para julgar o ex-presidente por supostos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.

Caso confirme sua candidatura no próximo ano, algo que se encaminha quase que naturalmente pela popularidade de Lula indicada pelas recentes pesquisas de opinião, o político volta ao cenário eleitoral após ser condenado, preso e, ainda sim, deter robusta penetração em boa parte da sociedade brasileira. Se eleito, será um dos mais longevos homens públicos a ocupar o posto máximo da República, ficando atrás, apenas, de Getúlio Vargas, presidente entre 1930 a 1945 e 1951 a 1954.

Lula acumula cinco campanhas presidenciais em seu currículo. Persistente, perdeu as três primeiras, em 1989, 1994 e 1998, as duas últimas, ainda em primeiro turno, ambas para Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Venceu, em segundo turno, as outras duas, em 2002 e 2006. Mas foi, sem dúvida, a primeira, a mais emblemática.

+ Lula presidente? Não dessa vez…

A primeira tentativa de Lula de chegar ao poder em Brasília aconteceu em 1989, também a “estreia” nas urnas para muitos brasileiros. Foi a primeira eleição direta no país após 25 anos de Ditadura Militar.

Na época, o Partido dos Trabalhadores ainda era uma sigla pequena, mais ideológica e identificada com os conceitos das filosofias socialistas. No começo das movimentações para o pleito, que contou com grande mobilização popular, um povo sedento em poder voltar a escolher seu presidente, o ex-metalúrgico do Grande ABC paulista era considerado um “azarão”.

Na largada da corrida presidencial, os holofotes se voltavam para o apresentador e dono do SBT, Silvio Santos. Mas articulações de bastidores nunca totalmente esclarecidas, forçaram a impugnação da candidatura do animador.

Entre os favoritos, estavam nomes de peso da política nacional; Ulysses Guimarães, do PMDB, Mário Covas, do recém-fundado PSDB, que aglutinou boa parte de dissidentes do partido de Ulysses, e Leonel Brizola, do PDT. Estes três, formavam um bloco mais progressista e vinham com a bagagem da luta contra o regime militar e pela redemocratização.

No campo conservador, Paulo Maluf, do extinto PDS, que carregava consigo o grupo da Arena, partido da base dos militares, Aureliano Chaves, do PFL, Guilherme Afif Domingos, do PL, e Fernando Collor de Mello, da legenda de aluguel PRN.

Com o desenrolar da campanha, Collor ganhou projeção com um discurso contundente de combate aos “marajás”, oposição radical ao governo da época, de José Sarney, e apoio de grande parte da mídia e do empresariado. Como estratégia, não compareceu aos históricos debates de 89, assumiu a liderança das pesquisas e garantiu uma vaga no segundo turno.

Do outro lado, a acirrada disputa para ser o oponente do ex-governador das Alagoas agitou o país, que parou para assistir aos confrontos na televisão e invadiu as ruas para participar dos comícios cheios de gente e esperança. Enquanto os adversários se digladiavam na TV, Collor “surfava” na onda de se consolidar como novidade, acertando em cheio na retórica, nada bem construída pelos demais, que discutiam questões menores, enquanto o país se afundava na inflação e no empobrecimento crescente.

Em um dos momentos mais marcantes daquela campanha, Brizola e Maluf travam embate num dos encontros promovidos pela TV Bandeirantes. Embora um prato saboroso para quem assistia, o confronto deixava claro o espaço aberto para aqueles que chegariam na disputa final.

+ ‘Filhote da ditadura’; relembre momento histórico no debate da Band:

Com a abertura das urnas, Lula superou Brizola, por pequena diferença; 17,18% a 16,51%, e avançou para a segunda etapa do pleito. Covas ficou em quarto, Maluf, em quinto. Collor venceu, com 30,47% dos votos.

A tão falada polarização dos dias atuais, não é fenômeno recente. A eleição de 1989 foi marcada, justamente, por esse lugar retórico. Collor era o candidato da família, do capital e da moralidade. Lula era a ameaça institucional e o perigo da volta do “fantasma” do comunismo nas Américas.

De “café com leite”, Lula virou protagonista com a franca ascensão no segundo turno. Recebeu apoio de todos os candidatos de centro e de esquerda. Juntaram-se ao sindicalista as igrejas ligadas à teoria da libertação, os intelectuais e boa parte da classe artística. É nessa última adesão, que surge o jingle eleitoral mais famoso do
país, gravado por Chico Buarque, Gilberto Gil e Djavan em clipe com a presença de dezenas de artistas.

+ Lulá lá…; o clipe e o jingle histórico: 

Com o avanço de Lula nas pesquisas, a campanha mudou de curso e tornou-se um festival de baixarias e agressões pessoais. O auge veio nos últimos dias do horário eleitoral. No programa de Collor, uma ex-companheira do candidato do PT aparece dizendo que ele teria lhe pedido para abortar a filha do casal, Lurian. A garota, num contra-ataque, aparece no programa de Lula, que desmente a versão da mulher.

Desta vez, Fernando Collor comparece ao debate, promovido às vésperas da votação e que entrou para a história, não só da política nacional, mas também da televisão. O Jornal Nacional, líder absoluto de audiência e formador de opinião de grande parte do povo brasileiro nos anos 80, exibe uma edição do confronto, feita para favorecer Collor, apoiado publicamente pelo dono da TV Globo, Roberto Marinho, em manobra confessada anos depois pelos diretores do jornal.

Cercada de expectativa, a apuração, ainda lenta contando os votos dos brasileiros registrados nas cédulas de papel, confirmou a vitória de Collor por pouco mais de 4 milhões de diferença; 53,03% contra 46,97% de Lula.

Até sua primeira vitória nas disputas presidenciais, Lula teve de mudar. Mesmo fortalecido pela expressiva votação de 89, para conquistar a parte do eleitorado que lhe faltava, sempre receoso com os efeitos da presença de um homem de esquerda no comando do país, fez inflexões. Parou de falar apenas para a sua base, ampliou seu arco de alianças políticas e incorporou o terno, a gravata e barba bem aparada.

Num eventual “Lula 2022”, após mais de três décadas, entre erros e acertos, acusações de corrupção, ódio de opositores e a defesa inflamada de uma militância fiel, certamente, as experiências vividas no histórico 1989 deveram ser usadas diante de um novo “nós contra eles”, talvez muito mais acirrado que naqueles tempos.

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