Leia o pronunciamento de Lula em reunião com empresários brasileiros e árabes

Lula no encerramento da Mesa Redonda Brasil-Arábia Saudita. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Lula no encerramento da Mesa Redonda Brasil-Arábia Saudita. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Leia a seguir, a íntegra do pronunciamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a mesa-redonda Brasil Arábia Saudita em Riad, nesta quarta-feira (29), com empresários brasileiros e árabes.

“Não é muito fácil encerrar um evento entre ministros e empresários depois de mais de 20 pessoas terem falado. E eu que não ouvi nenhum falar, posso repetir as coisas. Vou tentar não repetir. Quando estive na Arábia Saudita em 2009, na reunião que fizemos com empresários da Arábia Saudita e, na época, com o rei Abdula, eu dizia que o Brasil não andava o mundo apenas atrás de investimento e que o Brasil não andava o mundo apenas atrás de vender os seus produtos. Eu tentava mostrar a ideia de que a gente precisaria construir uma nova relação entre países, uma nova relação entre empresários e uma nova relação entre governos. E passei a trabalhar a ideia de que estamos viajando na tentativa de construir parcerias. Não é apenas saber quanto que os fundos da Arábia Saudita podem investir no Brasil. Mas é saber também quanto que os empresários brasileiros podem investir na Arábia Saudita. É essa troca e esse novo jeito de fazer política externa que pode mudar um pouco a face do comércio mundial.

O Brasil tem três grandes eventos no próximo ano. Mais um quarto agora. Mas o Brasil vai organizar o G20, que é o mais importante encontro de chefes de Estado, das maiores economias do mundo, para discutir temas que possam representar a melhoria do futuro da humanidade. O Brasil vai reunir em 2025 os BRICS, que é um fórum criado há pouco tempo, que tenho o imenso prazer de ter cumprimentado a Sua Alteza, o Príncipe Herdeiro, pelo fato de a Arábia Saudita ser o mais novo membro do BRICS. Inclusive, disse ao príncipe herdeiro que a entrada da Arábia Saudita nos BRICS leva em conta que a Arábia Saudita precisa ajudar a fortalecer o banco do BRICS, para que a gente possa mudar a faceta dos bancos multilaterais, para que eles possam tratar de financiar o desenvolvimento dos países mais pobres, sem taxas de juros escorchantes, que termina por matar qualquer possibilidade de investimento dos países.

Ao mesmo tempo, o Brasil vai sediar a COP 30 em 2025. Um evento que, só pelo fato de ser na Amazônia, já merece por si só um destaque extraordinário. O mundo inteiro fala da Amazônia. O mundo inteiro fala da floresta. O mundo inteiro fala da água doce do Brasil. Pois o mundo vai conhecer, de fato, o que é a Amazônia. A Amazônia não é apenas aqueles milhões de árvores que se vê quando passa de avião. Lá embaixo, tem muitos minerais críticos ainda inexplorados pelo Brasil. Lá tem a mais rica biodiversidade do planeta Terra, ainda totalmente inexplorada. Mas lá também tem homens e mulheres que precisam sobreviver. Os nossos indígenas, pescadores, ribeirinhos, pessoas que muitas vezes não aparecem nas pesquisas de opinião pública ou nos estudos feitos pelo nosso Instituto de Geografia. Mas são brasileiros que precisam que a Amazônia, além de ser preservada, receba a possibilidade de se desenvolver, para criar condições de vida digna para aquelas pessoas.

E eu conto com a Arábia Saudita não apenas para ajudar o Brasil a organizar o G20, mas também para a Arábia Saudita ajudar a organizar a COP30. Vai ser a grande oportunidade da gente receber oficialmente o príncipe herdeiro numa visita oficial para que a gente dê sequência à reunião que estamos fazendo agora.

Uma política de sucesso, a gente começa sempre com o primeiro passo. Eu fui o primeiro presidente da República depois do imperador Dom Pedro II a visitar alguns países árabes. Foi no meu primeiro mandato que nós tentamos estabelecer uma relação entre países árabes e América do Sul, na perspectiva de juntarmos os continentes, para que pudéssemos diminuir diferenças culturais entre nós e compartilhar políticas de desenvolvimento e política de investimento.

Eu quero aproveitar esse fórum, em novembro de 2023, para dizer aqui na Arábia Saudita que daqui a dez anos o mundo vai dizer que se a Arábia Saudita é o país mais importante na produção de petróleo e de gás, daqui a dez anos o Brasil será chamado a Arábia Saudita da energia verde, da energia renovável. Porque é para isso que estamos trabalhando.

Nós temos alguns compromissos firmados. Primeiro, nós vamos diminuir o desmatamento até 2030. Nós queremos chegar a desmatamento zero na Amazônia. Segundo, nós vamos fazer como disse o Rui Costa, como disse Fernando Haddad e outros ministros, todo possível para que a gente faça do Brasil o centro do mundo na produção de energia alternativa. Porque acho que precisamos todos trabalhar com muita responsabilidade para descarbonizar o planeta, para que a gente possa viver de forma mais digna, com melhor qualidade de vida e sem medo de que nós estamos destruindo a casa onde nós moramos.

É nesse aspecto que a nossa visita se torna importante. Vocês sabem que o Brasil não é um país apenas do futebol. Vocês sabem que o Brasil não é um país apenas de carnaval. Vocês sabem que nosso país é um país que tem uma boa base intelectual, o nosso país tem uma boa base cientifica e tecnológica, vocês sabem que o nosso país tem um sistema financeiro sólido, entre bancos privados, bancos de investimento, bancos de varejo, e cinco grandes bancos públicos, e o Brasil é um país que tem muitas empresas de ponta.

É esse desafio que nós queremos fazer aos nossos amigos da Arábia Saudita. É que vocês construam parcerias com nossos empresários para que empresas brasileiras gerem desenvolvimento no Brasil, mas gerem desenvolvimento também na Arábia Saudita. Que a gente gere emprego no Brasil, mas que gere emprego na Arábia Saudita. E que a gente possa vender ao mundo as coisas com melhor qualidade, para que o mundo possa sobreviver. Por isso, eu vejo a diferença entre 2009, quando visitei a Arábia Saudita, e hoje. Naquele tempo era 1 bilhão a nossa relação comercial. Hoje são de 8 bilhões. E é muito pouco pelo tamanho da Arábia Saudita e pelo tamanho do Brasil.

O desafio que está colocado por mim e por Sua Excelência, o príncipe herdeiro, é de que os nossos ministros e os nossos empresários não parem nessa reunião. Essa reunião é apenas a primeira. Mas nós temos a obrigação, durante o ano que vem, de fazermos dezenas de outras reuniões, dezenas de viagens. Que os nossos empresários viagem para a Arábia Saudita, que discutam com os empresários.

Por exemplo, a gente poderia fazer investimentos cruzados entre a nossa Petrobras e empresas da Arábia Saudita para produzir fertilizantes. E dar uma garantia ao mundo com a incerteza criada pela guerra da Rússia na Ucrânia. Nós estamos falando de crescimento econômico e desenvolvimento quando parte do mundo fala em guerra. A guerra não traz nada a não ser miséria e morte. A não ser destruir aquilo que, com muito sacrifício, as pessoas construíram.

Quando um país chega a decretar guerra, é porque ele está decretando falência da capacidade do diálogo. E eu nasci na política fazendo diálogo. Eu acredito no diálogo. E é muito mais barato, é muito mais sensato, é muito mais eficaz você perder algumas horas numa mesa de negociação, do que você sair atirando a esmo matando inocentes, matando mulheres, matando crianças e matando homens.

Essa reunião aqui é um convite aos ministros da Arábia Saudita que já foram ao Brasil. Voltar a visitar o Brasil. É um convite aos ministros brasileiros. Não pensem que eu gosto que vocês fiquem parados no gabinete de vocês. Porque cada ministro quando fica parado no gabinete só recebe gente pedindo alguma coisa. Nunca aparece ninguém ofertando nada, por isso saiam, saiam para trabalhar, para vender os produtos que o Brasil tem. E saia para comprar os produtos dos outros que interessam ao Brasil.

É por isso que eu estou feliz com essa reunião. É porque quando cheguei à Presidência do Brasil em 2003, o Brasil não tinha nem U$ 100 bilhões de balança comercial. E eu acho que se o Brasil assumir as responsabilidades pelo tamanho que tem e pela importância que tem na geopolítica, eu queria dizer aos nossos ministros e aos empresários aqui que a gente pode sonhar que, em 2030, a gente tenha uma balança comercial de um trilhão de dólares. Quem pode dizer que não é verdade somos nós, de acordo com nossa capacidade de trabalho.

Aqui já foi falado da agricultura brasileira para empresários da Arábia Saudita. Aqui já foi falado da Indústria, porque está presente o presidente da Federação das Indústrias de de São Paulo, que é o centro industrial mais importante do país. Aqui já foi falado muitas coisas pelos banqueiros que estão aqui. E eu quero dizer para vocês: a gente só faz as coisas se a gente acreditar. E a gente não pode sonhar pequeno, porque quem sonha pequeno realiza pequeno. Nós temos que sonhar grande para realizar as políticas grandes do tamanho da Arábia Saudita e do tamanho do Brasil.

Eu quero dizer pra vocês que volto para o Brasil, depois que terminar a COP 28 em Dubai com a certeza de que, hoje, esta reunião significa a construção de uma nova história na relação entre Brasil e Arábia Saudita”.

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