Claudio Francioni. Foto: Nicolas Renato Photography

Claudio Francioni

Carioca, apaixonado por música. Em relação ao assunto, estuda, pesquisa e bisbilhota tudo que está ao seu alcance. Foi professor da Oficina de Ritmos do Núcleo de Cultura Popular da UERJ, diretor de bateria e é músico amador, já tendo participado de diversas bandas tocando contrabaixo, percussão ou cantando.

A Erupção – 40 anos da estréia do Van Halen

Por Pedro de Freitas

Quarenta anos atrás, o mundo do rock era composto por viúvas de Jimi Hendrix.

O guitarrista extraterrestre apareceu no cenário musical como uma bomba, deixou todos de queixo caído com sua habilidade e sua sensibilidade musical, e poucos anos depois partiu desse mundo, deixando um vácuo entre os fãs do instrumento mais importante do rock. O pós-furacão Hendrix foi ocupado por antigos músicos que ele havia superado em inventividade por larga margem (Eric Clapton, Jimmy Page, Pete Townshend, Jeff Beck) e por novos músicos que buscaram apoio na música erudita e no jazz (Steve Howe, David Gilmour, Robert Fripp, Ritchie Blackmore), mas que integravam bandas que eram consideradas por muitos como pretensiosas ou grandiloquentes demais. Apenas uns poucos frequentadores de nightclubs e bares nos arredores de Los Angeles ouviram a banda de um certo adolescente holandês, e sabiam que ali estava a chave e a pedra fundamental para o surgimento de uma nova geração de guitarristas, com um novo estilo, que tomaria conta das duas décadas seguintes e cuja influência se estende até os dias de hoje.

Quando há quarenta anos o Van Halen entrou em estúdio para gravar seu primeiro disco, já possuía anos de experiência tocando na noite californiana. Por isso, soa inacreditável saber que somente após todo esse tempo a banda foi assistida por um figurão do showbizz (o baixista Gene Simmons, do Kiss), e indicada a um produtor de uma grande gravadora (Ted Templeman). A banda, formada pelos irmãos Edward e Alex Van Halen, pelo inquieto vocalista David Lee Roth, e pelo baixista Michael Antony, estava tão preparada que já tinha repertório pronto não só para o disco de estréia, como também para o segundo e terceiro álbuns (Van Halen II e Women And Children First – todos gravados com composições que praticamente já existiam na época dos bares).

“Van Halen”, o disco de estreia da banda, foi gravado em apenas duas semanas. É um disco cru e vigoroso, gravado praticamente como se fosse ao vivo. Não é o meu disco preferido do Van Halen; gosto mais do sombrio e estranho “Fair Warning”, o primeiro álbum constituído do zero, sem material antigo – e que deu início à intermináveis desavenças entre os membros do grupo. Mas nem “Fair Warning” nem qualquer outro álbum do Van Halen, e poucos trabalhos de outros artistas, contém uma performance tão energética quanto “Van Halen”. Sem frescuras, discursos políticos, pretensões artísticas: apenas guitarra, baixo, bateria e voz gravados quase sem overdubs; uma usina de força que era uma amostra fiel da energia atirada à plateia nas noites de shows. E é o disco de apresentação de Eddie Van Halen, o homem que criou técnicas revolucionárias e ampliou horizontes para a guitarra, se tornando o maior nome do instrumento nos anos seguintes. A habilidade de Eddie foi sintetizada de forma admirável em “Eruption”. “Eruption” era uma espécie de “warm up” que Eddie utilizava antes de gravar ou tocar em shows e somente foi registrado em vinil por insistência do produtor Ted Templeman. Gravado, se tornou um dos mais conhecidos solos de guitarra de todos os tempos. Lembro de uma loja de música em Copacabana, que pôs uma placa na parede proibindo que os “candidatos a Eddie Van Halen” tentassem tocar “Eruption” na hora de testar guitarras…

Mas “Van Halen” vai muito além de “Eruption” A força bruta de Eddie, Alex, Dave e Michael ilumina pérolas pop como “Jamie’s Cryin’”e “Feel Your Love Tonight”; recria músicas de outros artistas, como “You Really Got Me” e “Ice Cream Man”; e até dão vida a rascunhos musicais incompletos, que na mão deles viraram arrasa quarteirões (“Atomic Punk” e “On Fire”). Mas acima de todas, existe “Ain’t Talkin’ Bout Love”, a musica do Van Halen que todos os roqueiros deveriam ser obrigados a conhecer.

O que tem de mais em “Ain’t Talkin’ Bout Love”? Bem, falando a verdade… a letra é esquecível. A música tem pouco mais que três acordes. Dave Lee Roth se abstêm de cantar e praticamente declama os versos, apenas sugerindo a melodia. O solo de Eddie não é dos melhores que ele já fez. Mas logo após o dedilhado inicial, Eddie começa tocar o riff de guitarra, e não é um riff qualquer. É algo simplesmente arrasador e incendiário. O som da guitarra de Eddie, que nos últimos discos do Van Halen soava ultra processado, foi gravado com crueza, despido de qualquer excesso; o resultado é arrepiante. A guitarra de Eddie em “Ain’t Talkin’ Bout Love” soa como um motorzão V8 cuspindo cavalos em uma estrada sem limite de velocidade. “Ain’t Talkin’ Bout Love” é isso: um riff de guitarra monstruoso que tomou a forma de uma música inteira. Simplicidade, perfeição técnica e emoção ocupando o mesmo espaço. Pouco menos de quatro minutos que foram responsáveis por levantar plateias mundo afora por anos a fio. Foi uma das poucas músicas mantidas no repertório da banda depois que Dave Lee Roth saltou fora, deixando o microfone para Sammy Hagar. Virou cover na mão de diversos artistas (como Foo Fighters, Pearl Jam, Greenday, etc), e recortada e incluída em músicas de artistas de rap e música eletrônica.

Após a estréia fonográfica, o Van Halen passou a ser escalado como banda de abertura de medalhões como Black Sabbath e Kiss. Amparados no sucesso do disco, na comoção formada em torno de Eddie, e nos anos de experiência tocando em bares, Eddie, Dave, Alex e Michael, então, se acostumaram a atropelar as atrações principais, de uma tal forma que, aterrorizadas, as grandes bandas da época passaram a sistematicamente recusar esse “presente de grego” em seus números de abertura.

Há todo um rumor na rede por conta dos quarenta anos da estréia do Van Halen. Fala-se de uma reunião da formação original para alguns shows comemorativos. Mas um evento assim, constato com ceticismo, terá muita mídia e superprodução, mas acho virtualmente impossível reproduzir a energia da estréia de quarenta anos atrás. Quem viu, viu.

P.S. : “Ain’t Talkin’ Bout Love”

https://www.youtube.com/watch?v=Y-IUB62zDlA

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