O poeta e suas inquietações com a política e a busca do amor

Jacinto Fabio Corrêa. Foto: Divulgação

Jacinto Fabio Corrêa. Foto: Divulgação

O poeta Jacinto Fabio Corrêa lança, lança nesta sábado, 2 de setembro, às 17h, no Instituto Kreatori (Rua Alice, 209 – Laranjeiras RJ), seu 13º livro independente, “Fatário”. “Trata-se do meu livro mais ‘duro’, cujo primeiro capítulo se dedica a mostrar minhas inquietações políticas e a discutir as atuais relações trabalhistas. Nas discussões com a designer Heliana Pacheco, com quem trabalho há quase 30 anos, percebemos que não caberia ressaltar a questão manual, mas contar com ilustrações impactantes, que ficaram a cargo de Liekki Åkerfeldt, uma jovem e promissora artista gráfica”, explica o poeta.

Jacinto esclarece que são três livros num só, o que exigiu uma programação visual mais abrangente, que, em razão do conteúdo dos poemas, foi desenhada a partir das cartas de baralho. Além da primeira parte, intitulada Ases incapazes, o livro traz outros dois capítulos autônomos.

Trata-se do meu livro mais ‘duro’, cujo primeiro capítulo se dedica a mostrar minhas inquietações políticas.

De onde o curinga observa o mundo é composto por poemas mais existencialistas e amorosos, com destaque para a relação do poeta com a poesia: “Fatário significa aquele que acredita na fatalidade, no destino. É assim que vejo a poesia na minha vida”. O terceiro capítulo, O rei e o valete das acácias azuis, apresenta uma faceta até então desconhecida de Jacinto: “É uma história, uma espécie de fábula moderna, que escrevia há alguns anos, sem muita pretensão, sobre um rei poderoso que se apaixona por um valete comum. Chegou a hora de mostrá-la”.

Como de costume, após o lançamento, o poeta levará o livro para o palco, em recital previsto para ser encenado até o final de 2017. “Alguns poemas são bem diretos, como se ditos em palanques, e outro bem teatrais. Acho que dará uma mistura interessante”, finaliza Jacinto.

Fatário dá sequência aos doze livros de poesia já lançados pelo autor, entre eles Cartas ao grande amor (2014), Casa de algaços (2012) e Silenciário (2010). Além dos livros, Jacinto gravou o DVD Um diário para dois (2008) e o CD Sinais urbanos, em parceria com o cantor e compositor Paulo Corrêa. Seu trabalho pode ser melhor conhecido em www.jacintocorrea.com.br

Alguns poemas de Fatário, de Jacinto Fabio Corrêa

HOLERITE

Avaliações equivocadas
premeditadas tramoias apontam
o desligamento sumário do trabalhador.
Gavetas vazias e uma caixa de papelão
a misturar documentos, retratos
uma certa esperança de reconhecimento.

Um verso escapa do embrulho
e pelos corredores da empresa
consola os olhos de quem
ainda não sabe conviver com injustiças.

O poeta jamais será demitido.

A ÚLTIMA REFEIÇÃO

Quem se acha exímio ás
na política ineficaz dos pregões
não passa de um capataz
capaz de compactuar falsas delações.
É judas, barrabás de si mesmo
cego alcatraz com asas para dentro.
Só merece viver mais um dia
para roer o osso assaz proscrito
servido no calabouço da culpa fugaz
onde a última contumaz refeição
não satisfaz o apetite voraz
da vil e mordaz traição.

A NOVA CALIGRAFIA

Seu desejo é analfabeto
mas sabe decifrar os códigos
em minhas cartas de linho.

Sorri a cada palavra
sem conhecer os significados.
Nunca ouvir falar de poesia
quanto mais de sombras.
Mas gosta do que sente.

Também se aprende a ler
com os olhos fechados.

DICIONÁRIO

Seu dicionário é farto
em páginas e explicações.
Mas lá apenas uma palavra existe.

Aquela que, por não saber pronunciar,
cresce em seu peito
como uma colônia de cupins.

Amor não se mata com silêncio.

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