Celso Sabadin

Jornalista, crítico de cinema, professor, escritor, curador e cineasta. É autor dos livros "Vocês Ainda Não Ouviram Nada - A Barulhenta História do Cinema Mudo", "Éramos Apenas Paulistas", biografia do cineasta Francisco Ramalho Jr., e "O Cinema como Ofício", biografia do cineasta Jeremias Moreira. Roteirizou e dirigiu o longa metragem "Mazzaropi", lançado em 2013, e o curta "Nem Isso", a partir da obra de Luís Fernando Veríssimo, lançado em 2015. Corroteirizou e codirigiu a série de TV "Mazzaropi, Uma Série de Causos", exibida no Canal Brasil. É editor do site "Planeta Tela", especializado em Cinema, e sócio-fundador da Abraccine - Associação Brasileira de Críticos de Cinema.

‘O pacto de Adriana’, a dolorosa busca pela verdade

“O Pacto de Adriana”. Foto: Divulgação

“O Pacto de Adriana”. Foto: Divulgação

Com a facilidade de acesso ao audiovisual proporcionada pelos recentes processos digitais, tornou-se comum a produção de documentários, digamos ”familiares”. Alguém que acredita que determinada história acontecida em sua família é interessante o suficiente para virar filme lança mão de uma câmera e de um laptop e sai por aí fazendo um longa. Se der certo, consegue até algum edital para distribuir, em salas de cinema, este seu íntimo álbum digital.

O problema é que nem sempre a história que parece boa para a família do cineasta é boa também para o público em geral, e não raro este tipo de filme acaba tendo interesse específico e pessoal. Muito específico e pessoal, como é possível comprovar em alguns lançamentos recentes.

Felizmente, isso não acontece com o vibrante e perturbador “O Pacto de Adriana”. O longa pode, sim, ser considerado um documentário familiar, mas o que ele tem para dizer está longe de ser de interesse específico e pessoal.

A Adriana do título é uma simpática e animada senhora chilena de classe média que viaja bastante e sempre que retorna à sua cidade é recebida no aeroporto por vários elementos de sua igualmente animada família. Entre eles, sua mãe, irmãs, e a sobrinha Lissette. Nada de especial. Até o dia em que a tia Adriana desembarca no aeroporto e é recebida pela polícia chilena, que a leva presa, para a surpresa e medo da família. Estudante de cinema, a sobrinha e sua câmera vão investigar o ocorrido e descobrem, estarrecidas, que Adriana é acusada de ter sido uma das mais cruéis torturadoras da ditadura Pinochet. O que existe ou não de verdade nisso tudo é o que o filme pretenderá descobrir.

Cinematograficamente, “O Pacto de Adriana” traz pouco, mas a tensão da busca pela verdade temperada pelo relacionamento afetivo/familiar entre documentada e documentarista valem o filme. Mesmo porque, diferente do que acontece no Brasil, a preocupação pela punição de crimes cometidos durante a ditadura é real e concreta, no Chile. Acompanha-se com interesse e intensa carga emotiva a procura desta garota por depoentes, notícias e fatos da época que possam jogar alguma luz (ou mais escuridão) sobre o tema, ao mesmo tempo em que os depoimentos desencontrados da própria acusada conduzem a investigação por caminhos ainda mais tortuosos.

Há momentos de virar o estômago, principalmente os relacionados aos torpes mecanismos de sedução do poder, além do registro atual de uma grande convenção de apoio a Pinochet. A sensação de mal estar piora toda vez que lembramos que toda esta luta pela verdade e pelos direitos, tipicamente latino americana, aqui em nosso país foi atirada sem dó nem piedade na lata de lixo da História. Onde permanece firme e forte.

“O Pacto de Adriana” estrou nesta quinta, 11 de janeiro.

Comentários

srzd



mais notícias