Celso Sabadin

Jornalista, crítico de cinema, professor, escritor, curador e cineasta. É autor dos livros "Vocês Ainda Não Ouviram Nada - A Barulhenta História do Cinema Mudo", "Éramos Apenas Paulistas", biografia do cineasta Francisco Ramalho Jr., e "O Cinema como Ofício", biografia do cineasta Jeremias Moreira. Roteirizou e dirigiu o longa metragem "Mazzaropi", lançado em 2013, e o curta "Nem Isso", a partir da obra de Luís Fernando Veríssimo, lançado em 2015. Corroteirizou e codirigiu a série de TV "Mazzaropi, Uma Série de Causos", exibida no Canal Brasil. É editor do site "Planeta Tela", especializado em Cinema, e sócio-fundador da Abraccine - Associação Brasileira de Críticos de Cinema.

‘Lou’ retrata o esplendor criativo de uma era

"Lou". Foto: Divulgação

“Lou”. Foto: Divulgação

Sabe aquele clichê do filósofo sério e compenetrado, que passa a vida, digamos, filosofando taciturnamente? Esqueça. Um dos grandes méritos do filme “Lou” é exatamente desconstruir esta ideia, humanizando a figura do filósofo. E não um filósofo qualquer, mas Paul Rée e Friedrich Nietzsche, que – juntamente com o poeta Rainer Maria Rilke – caíram de amores pela escritora e psicanalista Lou Andreas-Salomé. É ela quem conta a história deste belo drama romântico-existencialista coproduzido por

Alemanha, Áustria, Itália e Suíça. E falado em alemão, claro, pois está provado que só é possível filosofar em alemão.

Tudo começa em 1933, quando Hitler assume o poder e faz de uma de suas primeiras bandeiras a reforma da previdência… oops… a queima de livros “decadentes” no julgamento dele. Assustada, Lou Andreas-Salomé, enfraquecida por uma forte diabetes, escreve uma carta de alerta ao seu amigo Sigmund Freud. E provavelmente antecipando seu fim, decide contratar um jovem escritor com bloqueio criativo para escrever suas memórias. Ou a parte que lhe interessa das suas memórias.

A partir daí o filme se desenvolve num belíssimo flash back que abordará nostalgicamente toda uma época de descobertas e pensamentos libertários, um desabrochar de século 20 no qual as ideias pululavam e as mentes fervilhavam, onde as teorias filosóficas e psicológicas buscavam seus caminhos, e onde o papel da mulher engatinhava tentando encontrar seu direcionamento por entre uma espinhosa selva de comportamentos machistas.

A direção de Cordula Kalitz-Post (também coautora do roteiro e aqui estreando no longa de ficção) é sóbria e eficiente, dando conta do difícil recado de alinhavar tantas linhas de pensamentos filosóficos sem cair no discursivo nem no ininteligível, ao mesmo tempo em que dá vida verossímil aos diversos personagens. O detalhe da protagonista passeando virtualmente por entre antigos cartões postais é de rara delicadeza poética.

Com eficientes interpretações de todo o elenco (mesmo porque não deve ser nada fácil interpretar Nietzsche com aquele bigodão e manter um mínimo de respeitabilidade), “Lou” estreou nesta quinta-feira, 11 de janeiro.

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