Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

‘O Desmonte do Monte’: ganância e descaso

O Morro do Castelo abrigou diversas construções dos jesuítas, que teriam escondido um valioso tesouro em suas galerias (Foto: Divulgação).

País conhecido por não preservar sua História e patrimônio, o Brasil está enredado em problemas oriundos da ganância e do descaso de seus governantes há séculos, como pode ser observado no documentário “O Desmonte do Monte” (2018), que estreia nesta quinta-feira, dia 12, nos cinemas cariocas – o longa já está em cartaz em Porto Alegre e chega às salas de exibição paulistas no dia 02 de agosto.

 

Marcando a estreia de Sinai Sganzerla na direção, o documentário passeia pela história do Rio de Janeiro por meio do Morro do Castelo, ou Colina Sagrada, local escolhido pelos portugueses para a fundação da cidade outrora chamada de São Sebastião do Rio de Janeiro dois anos após ter sido fundado oficialmente no Morro Cara de Cão (1565), na Urca, próximo ao Pão de Açúcar. Desde então, a cidade que um dia fez por merecer o título de maravilhosa passou por diversas reformas urbanísticas e, em prol do tão sonhado progresso, testemunhou partes importantes de seu patrimônio e história serem destruídos, como por exemplo, o Palácio Monroe. Um dos símbolos da República e antiga sede do Senado Federal, o prédio sediou em 1922 a Comissão Executiva da Exposição do Centenário da Independência do Brasil, evento utilizado como uma das justificativas para a demolição do Morro do Castelo pelo então prefeito Carlos Sampaio, um dos sócios da empreiteira responsável pelo desmonte.

 

As terras do Morro do Castelo foram utilizadas para aterrar diversas áreas da cidade, entre elas, parte da Urca e a Lagoa Rodrigo de Freitas (Foto: Divulgação).

 

Narrado por Helena Ignez, mãe de Sinai Sganzerla e uma das estrelas do Cinema Novo, “O Desmonte do Monte” utiliza imagens de arquivo, fotografias e gravuras, costuradas com eficiência pela montagem de Rodrigo Lima, para explicar didaticamente a demolição do Morro do Castelo, que demorou anos para ser concluída e deixou inúmeras famílias desabrigadas numa fase de “higienização”, por mais absurdo que seja utilizar este termo, do Rio de Janeiro. Primeiro país a traficar escravos do continente africano e o último a abolir a escravatura, o Brasil visava se equiparar ao Velho Continente, tentando esconder a pobreza que refletia o descaso de governantes que sempre abandonaram seu povo à própria sorte, sobretudo os negros libertos no final do século XIX e seus descendentes.

 

Além disso, o documentário aborda a lenda do valioso tesouro escondido pelos jesuítas em galerias subterrâneas nas construções do Morro que era considerado um obstáculo não apenas para o progresso, como também para o escoamento da água e circulação de ar, o que aumentava o calor na cidade que crescia tendo Paris como fonte inspiradora no início do século passado.

 

No fim das contas, “O Desmonte do Monte” é uma crítica à ganância, corrupção e desrespeito de governantes que não preservam a História nem o patrimônio do nosso país porque não lhes interessa. Afinal, para que o Brasil preservasse sua memória e seus bens, seria necessário investir na educação do povo, tirando-o da zona de conforto sempre proporcionada pela alienação e atualmente também pelo fanatismo político, o que causaria impacto significativo principalmente nas urnas, uma vez que política, religião e fã clube são coisas distintas e que não devem jamais se misturar.

 

Assista ao trailer oficial:

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