Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

‘Lady Bird: A Hora de Voar’: falta conteúdo

Saoirse Ronan e Laurie Metcalf estão concorrendo às estatuetas do Oscar de melhor atriz e atriz coadjuvante, respectivamente (Foto: Divulgação).

O cinema adolescente costuma seguir uma fórmula básica para atrair o público, abordando a descoberta da sexualidade, a experiência do primeiro amor, os clichês do high school americano e o drama familiar, geralmente em forma de conflito entre pais e filhos. Tal fórmula foi seguida à risca pela diretora e roteirista Greta Gerwig em “Lady Bird – A Hora de Voar” (Lady Bird – 2017), uma das estreias desta quinta-feira, dia 15.

 

No longa indicado a cinco estatuetas do Oscar, Christine (Saoirse Ronan) é uma adolescente que se recusa a ser chamada pelo nome, utilizando somente o apelido Lady Bird. Matriculada num colégio de freiras em Sacramento, capital do estado americano da Califórnia, a garota tem dificuldades em aceitar e entender certas convenções estabelecidas pela sociedade, fazendo o possível para adotar um estilo de vida mais livre para “poder viver alguma coisa”, como diz. O problema é que enquanto ela sonha com a liberdade, sobretudo numa universidade da Costa Leste dos Estados Unidos, sua mãe, Marion (Laurie Metcalf), a controla e lhe concede choques de realidade a todo instante, inclusive relacionados à situação financeira da família.

 

Ao tentar abordar tantos assuntos inerentes à adolescência, “Lady Bird – A Hora de Voar” não desenvolve nenhum deles com o mínimo aprofundamento. Com isso, praticamente joga os dramas de sua protagonista na tela, realizando um filme inconsistente que utiliza algumas pitadas de anarquia para parecer “legal” junto ao público jovem, porém sem nada que as justifique.

 

Lucas Hedges e Saoirse Ronan na cena que mostra a casa dos sonhos da protagonista (Foto: Divulgação).

 

Com o roteiro raso e a direção fraca e nada original de Gerwig, coube ao elenco a responsabilidade de salvar o longa do desastre completo. Contudo, considerando que atores não realizam milagres, pouco pôde ser feito, pois não há como extrair dramaticidade de personagens vazios e desinteressantes, principalmente a protagonista Lady Bird. Concorrendo ao Oscar pelo papel, Ronan não encontra a dose mínima de emoção da personagem e, portanto, não consegue se destacar como Metcalf e Lucas Hedges (Danny), que vive um rapaz de sexualidade reprimida.

 

Ambientado em 2002, “Lady Bird – A Hora de Voar” ainda tem a pretensão de abordar o trauma causado pelos atentados de 11 de setembro, resumido no medo de Marion em relação à possibilidade de mudança da filha para Nova York. Mas é tudo tão rápido que soa superficial e forçado, como se o assunto surgisse para conceder dramaticidade a algo sem conteúdo.

 

Tentando evocar dramas adolescentes do passado, “Lady Bird – A Hora de Voar” é, no fim das contas, um filme sobre uma garota que tem vergonha de sua origem e que tenta criar uma personagem para fugir de sua realidade de classe média. Mais do que isso, é uma apologia a não valorização de quem e do quê realmente importam em prol do discurso sobre uma vida “livre”, mas sustentada pelos pais que se endividam para que os filhos realizem seus sonhos.

 

*Indicado a cinco estatuetas do Oscar: melhor filme, direção para Greta Gerwig, atriz para Saoirse Ronan, atriz coadjuvante para Laurie Metcalf e roteiro original para Gerwig.

 

Leia também:

Oscar 2018: ‘A Forma da Água’ lidera com 13 indicações

 

Assista ao trailer oficial legendado:

Comentários




mais notícias

    gl