Ana Carolina Garcia. Foto: SRZD

Ana Carolina Garcia

Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá, onde também concluiu sua pós-graduação em Jornalismo Cultural. Em 2011, lançou seu primeiro livro, "A Fantástica Fábrica de Filmes - Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema", da Editora Senac Rio.

2017: o ano que abalou Hollywood

O produtor Harvey Weinstein no tapete vermelho do Oscar 2015 (Foto: Divulgação – Crédito: Mark Suban / ©A.M.P.A.S.).

Ano extremamente conturbado dentro e fora do Brasil, 2017 ofereceu ao público uma safra de filmes bastante interessante. Mas é impossível fazer uma retrospectiva dos melhores longas-metragens que entraram em cartaz nas salas brasileiras sem antes citar os escândalos que abalaram o maior centro de produção cinematográfica do planeta: Hollywood.

 

Há tempos a indústria não tinha um ano tão polêmico quanto 2017, que começou com a temporada de premiações ainda sob o efeito do chamado “#OscarSoWhite” (“Oscar tão branco”, numa tradução literal). Iniciada após o anúncio dos indicados ao Oscar 2016, a campanha foi uma retaliação da indústria e do público a pouca diversidade da lista da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (Academy of Motion Picture Arts and Sciences – AMPAS), sobretudo pela ausência de profissionais negros dentre os concorrentes das principais categorias.

 

O episódio obrigou a AMPAS a abrir o leque e apostar em títulos menores, como “Estrelas Além do Tempo” (Hidden Figures – 2016) e “Moonlight – Sob a Luz do Luar” (Moonlight – 2016), que derrotou o favorito “La La Land – Cantando Estações” (La La Land – 2016) na categoria principal. Porém, o anúncio de sua vitória aconteceu em meio à maior gafe da história da instituição, pois o filme de Damien Chazelle chegou a ser anunciado por Warren Beatty e Faye Dunaway como o grande vencedor devido a uma troca de envelopes nos bastidores, algo corrigido de forma constrangedora ainda no palco durante o discurso de agradecimento dos produtores do musical.

 

A vitória de “Moonlight – Sob a Luz do Luar” foi anunciada de maneira constrangedora após a maior gafe da história da AMPAS (Foto: Divulgação).

 

No entanto, “Moonlight – Sob a Luz do Luar” e “Estrelas Além do Tempo”, ambos inspirados em histórias reais, não foram os únicos títulos que levaram o preconceito ao palco do Dolby Theatre, em Los Angeles. Dois dos melhores longas-metragens exibidos no circuito brasileiro neste ano também abordam essa temática e participaram da maior festa do cinema mundial: o documentário “Eu Não Sou Seu Negro” (I Am Not Your Negro – 2016) e o faroeste “A Qualquer Custo” (Hell or High Water – 2016).

 

A polêmica da falta de diversidade sacudiu a indústria hollywoodiana, mas não a ponto de abalar suas estruturas, como os escândalos de assédio sexual envolvendo nomes poderosos, sobretudo o de Harvey Weinstein. Investigado por assédio sexual e estupro após ter sido acusado por diversas mulheres, inclusive pelas atrizes Angelina Jolie e Gwyneth Paltrow, o ex-todo poderoso de Hollywood foi enviado diretamente ao limbo, demitido de sua própria companhia (The Weinstein Company) e expulso da AMPAS e do Sindicato dos Produtores (Producers Guild of America – PGA).

 

Principal aposta da The Weinstein Company para o Oscar 2018, “A Guerra das Correntes” teve seu lançamento adiado (Foto: Divulgação).

 

O “caso Harvey Weinstein” exercerá forte influência na temporada de premiações, principalmente no Oscar, pois o produtor perdeu seu poder de fogo nos bastidores por tempo indeterminado. Por esta razão, a The Weinstein Company adiou a estreia de sua maior aposta para a próxima edição do prêmio da Academia: “A Guerra das Correntes” (The Current War – 2017). Protagonizado por Tom Holland e Michael Shannon, o longa tem datas de lançamento confirmadas somente na Noruega (26/01) e na Argentina (01/02), de acordo com o IMDB.

 

Mais do que isso, o escândalo envolvendo Harvey Weinstein desencadeou uma série de denúncias a outros profissionais, como Dustin Hoffman e Kevin Spacey. O burburinho em torno de Hoffman não era novidade, mas as acusações contra Spacey chamaram a atenção do público não somente pela maneira com a qual ele decidiu assumir sua homossexualidade, o que lhe rendeu acusações de utilizar sua opção sexual para tentar abafar o escândalo, como também pelas consequências que o levaram à geladeira hollywoodiana. Não demorou muito e o ator foi substituído por Christopher Plummer no novo filme de Ridley Scott, “Todo o Dinheiro do Mundo” (All the Money in the World – 2017), e demitido da série “House of Cards” (Idem – desde 2013) – lembrando que Spacey já havia rodado todas as suas cenas no longa-metragem de Scott.

 

“Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe” é estrelado por Adam Sandler, Ben Stiller e Dustin Hoffman (Foto: Divulgação).

Numa época em que serviços de streaming se popularizam cada vez mais, executivos de estúdios e outros profissionais, não apenas em Hollywood, encaram o principal deles, Netflix, como um mal que precisa ser extirpado o quanto antes para minimizar prejuízos em bilheterias ao redor do globo. Com isso, as produções originais da Netflix têm sido boicotadas em premiações e festivais, apesar do sucesso junto ao público e à crítica especializada. É o caso de “Okja” (Idem – 2017) e “Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe” (The Meyerowitz Stories – 2017), ambos aclamados pela crítica especializada no Festival de Cannes, realizado em maio deste ano.

 

Com ingressos a preços não tão populares assim e com a grande oferta dos serviços de streaming, além dos downloads ilegais, as salas de cinema de todo o mundo faturaram menos em 2017. De acordo com a Variety, somente no mercado americano houve uma queda de 3% em relação a 2016. Mesmo assim, a Walt Disney se tornou a única empresa a ultrapassar a marca de US$ 6 bilhões de bilheterias pelo segundo ano consecutivo – US$ 7,6 bilhões em 2016 e US$ 6 bilhões em 2017 (até a presente data). O estúdio do Mickey também é o único a superar a marca de US$ 5 bilhões pelo terceiro ano consecutivo. Segundo o Deadline, a Warner Bros. e a Universal Pictures arrecadaram mais de US$ 5 bilhões este ano.

 

Apesar do gordo faturamento, a Universal precisou lidar com a frustração causada pelo resultado de “A Múmia” (The Mummy – 2017), sobretudo no mercado americano, onde arrecadou US$ 80,1 milhões. Orçado em US$ 125 milhões, o longa protagonizado por Tom Cruise foi “salvo” pelo mercado internacional com faturamento aproximado de US$ 409 milhões, ocupando o 20o lugar nas bilheterias de 2017, de acordo com o Box Office Mojo.

 

Sucesso no mercado internacional, “A Múmia” foi um fracasso nos Estados Unidos e frustrou a Universal (Foto: Divulgação).

 

Conhecido como a “casa dos monstros” desde a Era Clássica, a Universal apostou em “A Múmia” para inaugurar o Universo Sombrio (Dark Universe) após o fracasso de “Drácula – A História Nunca Contada” (Dracula Untold – 2014). A nova série tem como objetivo conceder uma nova roupagem aos monstros de outrora, cujos filmes tinham como fontes de inspiração a Primeira Guerra Mundial e o Expressionismo Alemão, principalmente títulos como “O Gabinete do Dr. Caligari” (Das Cabinet des Dr. Caligari – 1920) e “Nosferatu” (Nosferatu, eine Symphonie des Grauens – 1922), dirigidos respectivamente por Robert Wiene e F.W. Murnau.

 

Até o momento, o último abalo sísmico na terra do cinema teve como epicentro a Walt Disney, que anunciou a compra da 20th Century Fox por US$ 52,4 bilhões no dia 14 de dezembro. A transação bilionária, que precisa ser aprovada pelo governo americano, causou apreensão em milhares de profissionais porque existe a possibilidade de demissões em massa. Proprietária da Pixar, da Marvel e da LucasFilm, a Disney poderá controlar aproximadamente 27% da indústria cinematográfica. E, caso a fusão seja aprovada nos próximos meses, o ratinho Mickey celebrará seu 90o aniversário com a indústria hollywoodiana aos seus pés.

 

*O Top 10 2017 será publicado em breve.

 

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