Proibições, redes sociais, eliminatórias, firmas e a obsessão pelo julgamento; a crise de identidade do Carnaval de SP

Proibições, redes sociais, eliminatórias e a obsessão pelo julgamento; a atual identidade do Carnaval de SP. Foto: Arte

O Carnaval carrega diversas definições, entre elas, a de ser a “festa do povo”.

No dicionário, a indicação; povo é: “o conjunto de pessoas que falam a mesma língua, têm costumes e interesses semelhantes, história e tradições comuns”. (Porto Editora, 2003-2017).

Estaria o “povo do samba” falando a mesma língua? A pergunta sugere reflexões.

Proibição da divulgação de sinopses, de sambas concorrentes, os monopólios nas eliminatórias, variações na forma de escolha dos hinos, corte de gastos, o olhar dos jurados e resistência às críticas. Estes são alguns dos ingredientes no caldeirão atual do samba paulistano.

A ausência de “povo” é discussão antiga no segmento e algo bastante complexo, fruto de variados acontecimentos, justificados das mais diferentes formas, dependendo da ótica. Nesta reportagem, o SRzd ouviu importantes personagens desta festa popular para entender os desdobramentos que envolvem especificamente dois quesitos; enredo e samba.

Carnaval 2018, tudo quase pronto…

Enredos para o próximo ano, todos conhecidos.

Sambas, com seu processo de escolha, também estabelecidos.

Eles são os primeiros na hierarquia do planejamento para o desfile oficial e estão profundamente interligados. As nuances de ambos, nesta temporada, explicam muito do momento atual do Carnaval na maior cidade do país.

Super escolas de samba S/A

Há muito tempo o Carnaval deixou de ser apenas uma festa popular, onde arte e poesia eram protagonistas do espetáculo, hoje, mercantilizado e especialmente voltado para a disputa.

Dizem os especialistas na matéria que; um bom enredo e um bom samba, são meio caminho andado para o êxito de um projeto carnavalesco.

Porém, as últimas décadas trouxeram uma série de transformações. O enredo, atualmente, passa pela análise de diferentes aspectos antes de ser “escolhido”.

Num tempo mais romântico e distante da profissionalização, eram levados em conta apenas o conceito artístico e o apelo popular de cada tema. Como num turbilhão de mudanças, vieram outros agentes, entre eles, os enredos patrocinados. Com projetos cada vez mais caros, as escolas passaram a buscar um aporte maior de recursos, sejam eles privados ou públicos, para viabilizar o que se chama de um “Carnaval de ponta”.

Em 1982, o Império Serrano, reconhecido, entre outros valores, por resistir ao movimento que rompeu com algumas tradições da festa, iniciado no final dos anos setenta no Rio, cantou o histórico “Bumbum paticumbum prugurundum”. Assinado por Rosa Magalhães e Lícia Lacerda, arrebatou a Avenida e conquistou o título, o último de sua nobre história. O lendário samba foi cantado em todo o país e, em um de seus trechos, fazia dura crítica ao modelo que já incomodava os mais saudosistas;

“Super escolas de samba S/A, super-alegorias, escondendo gente bamba, que covardia”

Anos depois, mais especificamente em 1997, quando completava 50 anos de fundação, para surpresa e decepção de muitos, cedeu, e preferiu cantar o “O mundo dos sonhos de Beto Carrero”, ao invés de sua gloriosa jornada cinquentenária.

Tanto no Rio, quanto em São Paulo, a mercantilização dos enredos consolidou-se num processo, aparentemente, irreversível.

É a partir de um tema que renda divisas, que as diretorias das agremiações buscam inflar os seus respectivos caixas para produção de cada espetáculo. E tudo pode acontecer. Nesse cenário, a asfixia abraça o processo criativo dos carnavalescos. Os temas autorais, devem ficar na gaveta. Estes artistas são, então, obrigados a conceber, quase que a forceps, alegorias e fantasias inspiradas em histórias que jamais gostariam de contar na Avenida.

Recentemente, em sua coluna no portal SRzd, o carnavalesco Marco Aurélio Ruffinn abordou a safra de enredos para o próximo ano.

Para Ruffinn, a ausência de enredos sobre o atual momento político e social do Brasil, expõe o processo de deterioração e uma certa inércia dos agentes da festa diante da realidade cotidiana do povo:

“Fui surpreendido com o anúncio do enredo da Estação Primeira de Mangueira para 2018; ‘Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco’. Enredo que soa como resposta ao argumento do prefeito carioca Marcelo Crivella abordando o corte de verbas das escolas de samba. Essa notícia me tirou do meu estado de descrença e trouxe-me um novo entusiasmo.

Nem tudo está perdido. A Mangueira engajada, atrevida e consciente de seu papel na cultura brasileira, é quem vai responder essa ‘pendenga’. Justo! A mais famosa escola de samba do planeta topou assumir esse papel. Espero que muitas outras se inspirem! O campeonato virou um detalhe. Ao ver a Mangueira abordar esse tema, senti um alívio. Que bom que não estou em marte”, avaliou Marco Aurélio comentando ainda a crise de identidade das escolas de samba:

Fazer uma ampla reflexão, é algo emergencial

“Ficar apenas vendo o bloco passar, não é prudente. Olhar para dentro e fazer uma reflexão, é emergencial. Tudo tem de ser revisto, ou o pouco de essência que ainda nos resta, vai se desagregar. Com tantas intervenções, a identidade já quase não existe mais.

É hora de re-significar valores ou seremos apenas uma cópia mal feita do que já existe”, alertou.

Mas não é só no campo do descompasso entre o tema proposto pelas escolas e a realidade das pessoas que reside a apatia dos enredos.

A obsessão pela disputa, também começou a trazer consequências.

A massificação de informações veiculadas na internet, antecipando muito do que seria visto apenas no dia do desfile oficial, fez alguns dirigentes mudarem suas estratégias. Neste ano, algumas escolas do Carnaval de São Paulo optaram por não divulgar as respectivas sinopses – texto base e explicativo do enredo.

Nos bastidores, confessam, que os jurados tomam conhecimento destes documentos nos meses que antecedem o desfile e, com isso, criam um pré-julgamento, muito antes mesmo de conhecer o resultado final na Avenida. Mauro Xuxa, carnavalesco da tradicional Barroca Zona Sul disse o que pensa sobre essa questão:

Xuxa sobre o Carnaval; Tudo é um jogo

“Na minha opinião, Carnaval se ganha dentro da própria casa. Cada escola tem um estilo de trabalho, que vem com a visão do carnavalesco e a cara dele. Tudo é um jogo. Mas se torna difícil não expor a sinopse, uma vez que os compositores, que são de todas as partes da cidade e de outras escolas, estão com ela em mãos. Para mim, esse ‘segredo’ não é de suma importância, não.

O verdadeiro segredo é a visão do carnavalesco, e não esconder os detalhes. As surpresas estéticas, essas sim, só se deve mostrar na Avenida. O encantamento aos olhos do público e dos jurados acontece ali”, defende.

E são eles, os carnavalescos, por muitas vezes, alvos de críticas nesse processo.

Ao ter de “conceber” textos – sinopses – explicativos de uma ideia que não é sua, e sim obrigatoriedade do patrocinador da ocasião, produzem algo de difícil entendimento.

Aí, entram em cena os “poetas”. Na cadeia produtiva do Carnaval, após a definição do tema com suas diretrizes, cabe a eles a criação da música; o samba-enredo. Se muitos deles admitem que, por vezes, é necessário um milagre produzir um samba diante daquela proposta, quem dirá o público, sem acesso ao texto e distante de toda essa engrenagem, apenas querendo brincar. Enfim, agora, a missão é dos compositores, a segunda parte dessa “história”.

“…Escuta o meu grito de alerta…”

“Não deixe o samba sambar”.

Este foi o enredo de uma das mais importantes escolas de samba do país, a Unidos do Peruche, no ano de 1995. Assim com o Império e outras agremiações cariocas fizeram a autocrítica sobre os rumos da folia, como São Clemente e Caprichosos de Pilares, sobretudo, em São Paulo também não faltou um momento de alerta, pedido nos versos do samba perucheano daquele Carnaval.

A crise de identidade nos enredos, por alguns dos fatores citados, sem dúvida, afeta a qualidade das canções inspiradas neles; o samba de enredo.

Certa vez, nos anos setenta, um importante poeta paulistano foi chamado para criar o samba de sua escola, faltando poucas horas para a escolha. Sentou-se na mesa de um bar, e num papel de pão fez um dos mais belos hinos do Carnaval, outros tempos.

Ideval Anselmo, autor de “Narainã”, considerado o maior hino de todos os tempos em São Paulo, relembra como as coisas aconteciam:

“Eu entrei no Camisa Verde, ainda nos tempos do Cordão, mas não para disputar samba-enredo, e sim para fazer parte daquela comunidade. Aquele brilho, era o que me seduzia”, conta. Ideval pisou na Barra Funda pela primeira vez em 1969:

Nunca fiz samba para jurado

“Nunca tive a intenção de chegar e ganhar, eu queria aprender, porque estava numa escola, ainda que de samba. Para fazer parte da ala, havia algo como um vestibular, onde você tinha que apresentar uma obra sua para ser aprovado e entrar. E fazer uma estrofe na hora, ao vivo, de improviso.

Em outras escolas, você fazia um estágio, só podia concorrer depois de, no mínimo, um ano convivendo com a comunidade”, explica.

“A sinopse castrou a inspiração. E eu me posicionei. Não vou me corromper. O Carnaval é do povo, eu não faço e nunca fiz samba para jurado. Essa nova geração de compositores, tem gente boa, mas o sistema está errado”, avalia.

Há alguns anos a disputa pela autoria de um samba tornou-se um campeonato a parte. O advento das eliminatórias, impôs uma nova e complexa realidade para as escolas de samba. Uma das consequências foi a praticamente extinção das alas de compositores. Hoje, os envolvidos neste processo, em boa parte dos casos, não possuem nenhuma ligação afetiva ou histórica com a comunidade, onde chegam, apenas, para concorrer.

E a disputa é feroz, e cara.

Balões, bandeiras, alegorias e cantores de renome. Tudo vale para impressionar as comissões julgadoras. O fato é que o modelo ficou caro. Nessa insana loucura cheia de artifícios, aqueles que não têm recursos, ficaram de fora. Vieram então as chamadas “firmas”, como se diz nos bastidores do Carnaval. Grupos de pessoas que se juntam para entrar firme, sem analogismos, na disputa, lançando mão de todas as ferramentas que o dinheiro possa viabilizar.

Esse grupos, cada vez mais, monopolizam o segmento e estão presentes em diferentes concursos. Em alguns casos, aqueles que assinam as obras, sequer são do ramo e nem mesmo possuem uma carreira musical que justifique o rótulo de “compositor”. Diante desta realidade, consequência de inúmeros fatores, os dirigentes das escolas de samba procuram o modelo ideal.

As eliminatórias infelizmente estão acabando

Neste ano, as alternativas foram as mais variadas possíveis; audição em CD, encomenda, disputa semi-aberta e a tradicional eliminatória, ainda que agonizante, como opinou a presidente da Mocidade Alegre, Solange Cruz, dias antes do início da disputa na escola que comanda há mais de uma década:

Realidade diferentes.

No Grupo Especial, cinco, das quatorze agremiações, aboliram o sistema eliminatório aberto.

Na mais popular escola da cidade, a Vai-Vai, deixar de mostrar para sua comunidade os concorrentes, é algo impensável. Essa é a avaliação do diretor alvinegro Lourival Almeida. Militante e enraizado, com propriedade para analisar o cenário, fez ampla reflexão sobre o tema, durante o lançamento do enredo 2018:

Premiações que ultrapassam a casa dos milhares de reais, direitos autorais e vaidade

São muitas as justificativas para o mergulho neste universo cercado de polêmicas que envolvem as eliminatórias de samba-enredo.

Os rumos desse processo despertam as mais diferentes reações. A proibição da divulgação de obras concorrentes na internet, tomou corpo.

As reações foram imediatas, não só daqueles que admiram e acompanham o universo das escolas de samba, mas também, dos próprios compositores. Um deles, multi-campeão nas disputas, Zé Carlinhos, consagrado na Vai-Vai, avalia este caminho como “perigoso”:

 

As justificativas dos dirigentes, assim como ao comentar a proibição da divulgação das sinopses, se escora também na repercussão que as obras concorrentes tomam nas redes sociais, e numa via de mão dupla.

Quinze, vinte sambas num ano?

Se o samba ganha em popularidade, interfere na decisão daqueles que são responsáveis pela escolha. Mas, nem sempre, a obra que cai no gosto do público, atende as exigências do regulamento.

Por outro lado, um samba ruim, cria áurea negativa e repercute, segundo os sambistas, na cabeça daqueles que vão julgar o concurso nas cabines do sambódromo do Anhembi. Mas, para Zé Carlinhos, algo mais o fez deixar a disputa em São Paulo esse ano:

 

Ainda no Bixiga, um dos mais renomados nomes na arte de interpretar sambas de enredo, Thobias da Vai-Vai também falou sobre a eterna matéria, criticando o oportunismo.

Põe meu nome aí no samba. Com 30 compositores? Nunca vi isso

Thobias relembrou em sua fala aquele que é, talvez, o mais conhecido samba de enredo da história do Carnaval de São Paulo; “Coisa boa é para sempre”, da Gaviões da Fiel, emblemático e marcante na discografia dos desfiles na cidade, campeã do Grupo Especial em 1995 e assinado por um único autor, Grego.

 

Thobias da Vai-Vai

Janus Tsukalas, esse é o nome de batismo de um dos mais importantes poetas da folia na cidade, autor de muitos sambas na Fiel. Em seu discurso, combate com veemência o modelo atual:

“Hoje, mais do que nunca, o ser humano quer ter seus quinze minutos de fama, só que o mérito deixou de ser importante. Já contei treze compositores numa música. Absurdo, né? Há vaidade excessiva de alguns diretores, carnavalescos e, nesse ambiente, reinam duas das poucas cabeças lúcidas de São Paulo em matéria de samba: Solange Bichara, da Mocidade Alegre, seguida de perto por Angelina Basílio, da Sociedade Rosas de Ouro. Ambas prezam a disputa do samba-enredo como ela merece.

Quanto as firmas, elas sempre existiram! Só que não conheço um samba sequer vindo delas que seja maravilhoso. Tem gente que gasta o que não tem para bater no peito”, argumenta.

Carioca e consagrado no segmento, principalmente por suas composições na Beija-Flor de Nilópolis, Claudio Russo contou abertamente os bastidores dos gastos que justificariam a formação das chamanas “firmas”; Gravação 5 mil, clipe 1 mil, cantor, ingressos e torcida, ônibus e ornamentos.

“Hoje o compositor gasta com a gravação. Uma boa gravação dá, no mínimo, R$ 5 mil. Agora, tem essa modinha do vídeo. Então, um bom clipe começa com mil reais no mínimo. Tem que levar o cantor do Grupo Especial, que é caro, tem ingresso na quadra, torcida, ônibus, cerveja para a torcida, bandeirinha, fogos. Isso tudo é muito caro. O samba de escritório é quando quatro, cinco, seis compositores se reúnem para tentar custear aquilo. Hoje, dois compositores não têm condições de custear. É muito cara a disputa. Até acho que se a disputa fosse mais barata, não existiria escritório nenhum. E já que estão juntos, cinco, seis, sete compositores, então fazem samba para mais de uma escola”.

Quando tem um amigo com mais dinheiro na parceria, então faz camisa, faz churrasco

“Acho que o modelo atual prejudica o compositor mais humilde. Caberia as escolas e aos compositores tentarem um caminho mais barato da coisa. O compositor também tem culpa nisso, porque gosta de gastar. Principalmente quando tem um amigo com mais dinheiro na parceria. Então, faz camisa, faz churrasco. Eu acho que tem que se chegar a um denominador comum e as escolas e os compositores se unirem. Um exemplo: estamos passando por uma situação na cidade com a violência. Sair à noite, varar a madrugada no samba é complicado.

Como é que vai voltar para casa? As escolas poderiam, sábado e domingo, fazer festivais de chopp, como tinham antigamente, começando às 14h, portões abertos, e faz a apresentação dos sambas nesses dias. Ia acabar mais cedo. Com o portão aberto, ia baratear a disputa e os compositores se apresentariam ali. Mas aí a escola poderia dizer que estaria perdendo receita. Hoje em dia, a escola abrir a quadra também é muito caro. Então, acho que deveria ter um denominador comum, uma conversa mais ampla para se chegar a uma situação melhor para todos. Os compositores humildes são mais prejudicados? São. E hoje eles estão também se unindo com outros compositores para tentar fazer grupos que tenham condições de custear essa disputa”.

A receita do sucesso

Ao emplacar uma sequência de obras reconhecidas pela crítica e jurados da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, a Acadêmicos do Tatuapé aponta novos caminhos.

“Em São Paulo a maior expressão de reestruturação é a Acadêmicos do Tatuapé. Há décadas sem grande desempenho, nos últimos anos é exemplo de vigor; restauração e administração do samba. Como consequência, o título de campeã do Carnaval paulistano de 2017. Na Avenida não ostentou as mais ricas alegorias e fantasias, mas arrebatou público, crítica e jurados na explosão do samba. Isso deu vida para todos os outros quesitos. Eles não inventaram essa fórmula, ela sempre existiu”, comentou o carnavalesco Marco Aurélio Ruffinn.

Lançamento do samba da Tatuapé 2018. Foto: SRzd - Claudio L. Costa

No último ano, o título. Para 2018, uma obra que já é considerada uma das melhores da safra. Obra feita pelo mesmo trio de compositores; Mike, Tenor e Luiz Fernando, algo raro, em tempos onde uma composição carrega a assinatura de mais de uma dezena de pessoas. Esses e outros aspectos foram abordados por Luiz Fernando:

 

Enredo e samba.

Dois elementos fundamentais na concepção de cada desfile de escola de samba no Carnaval, festa que começa muito antes da passarela, num vasto calendário que atravessa os meses que antecedem o grande dia e que dependem, principalmente, da adesão de apaixonados voluntários, clamando por uma maior participação em todos os processos de uma festa, acima de tudo, do povo; “o conjunto de pessoas que falam a mesma língua, têm costumes e interesses semelhantes, história e tradições comuns”.

* O portal SRzd procurou diferentes compositores que, justificando estarem envolvidos em eliminatórias de samba-enredo nesta temporada, optaram por não se pronunciar, na maioria dos casos, temendo que a manifestação sobre o tema abordado pela reportagem, os prejudicassem na disputa.

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