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‘O rei louco’: capítulo 1

O rei louco: Foto: Acervo pessoal

Odirley Isidoro publica mais um texto em sua coluna no portal SRzd.

Natural de São Paulo, nasceu no bairro do Parque Peruche, na Zona Norte da cidade. Poeta, escritor, pesquisador e sambista. Ao longo de sua trajetória, foi ritmista das escolas de samba Unidos do Peruche e Morro da Casa Verde, além de ser um dos fundadores da Acadêmicos de São Paulo.

As publicações são semanais, sempre às terças-feiras, na página principal da editoria do Carnaval de São Paulo. Leia, comente e compartilhe!

‘O rei louco’: capítulo 1

“…Senti um bom fluído me envolvendo…”
(Unidos do Peruche, 1989)

Assistindo ao desfile de 1989 da Unidos do Peruche comecei a tentar definir um parâmetro sobre a personalidade de Walter Guariglio, ex-presidente da escola.

O que ele era? Um visionário ou um desbravador?

Será que era um articulador que transitava pelos becos e vielas como um lorde e sambava entre o povo como um plebeu?

Sei que cada leitor terá a sua visão sobre ele, mas todos vão concordar num ponto; ele foi responsável direto por muitas mudanças em nosso Carnaval!

Com um olhar técnico de quem viveu o período áureo da escola, o carnavalesco Marco Aurélio Ruffinn o definiu como um “um louco genial, um apaixonado pelo Carnaval, que adorava sua escola e fez de tudo para ver o Peruche brilhar, e conseguiu“.

Ruffinn credita sua profissionalização no Carnaval a este período, e afirma: “Muita gente criticou o Waltinho, falando que ele estava descaracterizando o Carnaval de São Paulo e, de fato, descaracterizou. Ele realizou o que todos ainda pensavam ser a imagem e semelhança do Carnaval carioca. Depois, todo mundo foi atrás… Este era, e até hoje é, o nosso modelo de perfeição”.

Era um período onde ainda se consolidava a profissionalização dos desfiles paulistanos, através do intercâmbio entre os dirigentes da época.

Aquele momento foi um divisor de águas, na visão de Marco Aurélio. Esse processo de “gigantismo” se iniciou ali, sobretudo com Joãozinho Trinta e Laíla.

Pensar em Waltinho mexe com o imaginário do sambista, pois sempre fica a pergunta: Como dois ícones do Carnaval carioca vieram parar em São Paulo? Foi aí que fiz um convite especial ao nobre Laíla para explicar detalhadamente este momento, ouça nos links de áudio abaixo captados pela equipe SRzd no Rio de Janeiro:

Talvez ninguém imaginasse que existia essa ligação entre Waltinho e Laíla, muito menos a habilidade que ele demonstrara ao juntar grandes nomes daquela época em reuniões na quadra da escola para iniciar os trabalhos da Liga Independente das Escolas de Samba.

O mestre Raul Diniz conviveu muito tempo com ele e também comentou sobre a atuação de Guariglio no comando da “Filial do Samba”:

“Waltinho era agitado e visionário. A pedido dele eu desenhei o primeiro logo da Liga e, por diversas vezes, fomos ao Rio de Janeiro para falar com Julinho Matos, então carnavalesco da Mangueira, Nésio Nascimento, presidente da Tradição, Chiquinho Pastel, diretor da Padre Miguel, e com o carnavalesco Fernando Pinto. Com Fernando, acompanhamos a montagem do Carnaval de 1988 da Mocidade e o Waltinho observava tudo, sempre pensava no Carnaval de forma ampla”.

O Cidadão Samba Edson Prado o define desta forma: “Para muitos um louco, para mim um grande sábio do samba paulistano que ajudou o Carnaval a evoluir. Ele teve a capacidade de, certa vez, reunir a comunidade e abrir votação para quem tivesse interesse em substituí-lo. Apenas um levantou a mão e ele jogou uma cadeira na direção do camarada”.

Waltinho tinha muito amor por sua escola, e apostava alto.

Um bom exemplo foi a contratação de Jamelão e Eliana de Lima como dupla de intérpretes.

A cantora, em entrevista recente para o SRzd, diz que cantar ao lado de Jamelão foi um dos maiores momentos de sua carreira, e recordou com saudade aqueles Carnavais de ouro da Unidos do Peruche.

Tantas e tantas histórias são contadas e seguirão sendo lembradas na próxima semana.

Definitivamente, “O rei louco” não conquistou títulos pela sua escola, mas eternizou seu nome e contribuiu para mudar a história de nosso Carnaval.

Fechando a coluna desta semana, uma galeria com fotos de Waltinho em diferentes momentos de sua trajetória no samba paulistano, gentilmente cedidas por sua família:

(clique nas imagens para ver ampliado)

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