Mangueira 2018: Verde-e-rosa cumpre promessa, critica Crivella e resgata Carnaval popular

Desfile da Mangueira 2018. Foto: Leandro Milton/SRzd.

Todo mundo queria saber se a Estação Primeira de Mangueira cumpriria a promessa e faria crítica explícita ao prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella. A verde e rosa, corajosa, botou o prefeito em forma de ‘Judas’ e ainda trouxe os dizeres “Prefeito, pecado é não brincar o Carnaval” e “Olhai por nós. O prefeito não sabe o que faz” em elementos alegóricos. Com o enredo “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco”, desenvolvido pelo carnavalesco Leandro Vieira, a Mangueira trouxe o ‘povão’ para a Avenida em busca do regaste aos antigos Carnavais.

Sexta escola a desfilar deste domingo (11) de Grupo Especial, a agremiação levantou as arquibancadas de uma forma inusitada assim que pisou na Sapucaí. Com um equipamento de som a parte, a escola entoou marchinhas clássicas no esquenta e fez o público vibrar. Após as marchinhas, o intérprete Ciganerey cantou o clássico “Não deixe o samba morrer” para o delírio dos presentes. Durante o esquenta, o Setor 1, exaltado, gritou dizeres contra o prefeito Marcelo Crivella.

O presidente da Mangueira, Chiquinho, fez coro às críticas e disse que o prefeito realizou uma injustiça ao cortar metade da verba das escolas de samba para o Carnaval 2018. Chiquinho afirmou que, apesar de político, o tema da escola também tem tom irreverente.

A escola, segundo o comentarista do SRzd Luiz Fernando Reis, fez um bom desfile e possivelmente estará entre as seis primeiras colocadas. Luiz afirmou que, dependendo dos desfiles de segunda-feira (12), a verde-e-rosa poderá entrar na briga pelo título.

Desfile Mangueira 2018. Foto: Leandro Milton/SRzd

Enredo

O enredo “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco”, assinado pelo carnavalesco Leandro Vieira, trouxe um apanhado geral da história da folia e deu exemplos de Carnavais que não necessitam de dinheiro. Na opinião do comentarista do SRzd Luiz Fernando Reis, o enredo foi bem desenvolvido e passou de forma clara.

O primeiro setor, “Antigos Carnavais”, trouxe pierrôs, colombinas e elementos da antiguidade da festa. A segunda parte, “A essência da folia: a brincadeira”, surpreendeu pela pouca quantidade de alas entre o abre-alas e o segundo carro, mas tentou representar o entrudo, o Zé Pereira, o banho de mar a fantasia e o botequim. No setor “Escola de samba: um lapso de memória para lembrar-se das raízes” houve homenagem à própria Mangueira e à Portela. O quarto setor,”Que tomem a Avenida os foliões que ocupam as ruas!”, lembrou os blocos e os foliões de rua. Por fim, “Entrem, espalhem-se, baguncem e brinquem do jeito que podem” trouxe um grande bloco de sujo para tomar conta da Avenida.

Desfile Mangueira 2018. Foto: Leandro Milton/SRzd

Comissão de frente

Estreantes no posto, os coreógrafos Adriana Salomão e Steven Harper apresentaram um trabalho fidelíssimo ao tema proposto pela escola. Intitulada “Pecado é não brincar o Carnaval”, a comissão trouxe integrantes que interagiam com elementos que se transformavam em grades para barrar os foliões. Em determinado momento, as grades formavam a frase “Deixa nosso povo passar”. O público foi ao delírio. Ao fim, os componentes pulavam o portão e soltavam fitilhos dourados.

Em entrevista ao SRzd, os coreógrafos disseram ter demorado para encontrar o viés da comissão, mas decidiram representar o povo livre. A dupla elogiou o enredo e a crítica realizada pela Mangueira.

Na opinião do comentarista do SRzd Márcio Moura, a comissão conseguiu representar o conceito do enredo e, apesar de simples, conseguiu impactar e realizar com perfeição o que foi proposto.

Desfile Mangueira 2018. Foto: Leandro Milton/SRzd

Casal de mestre-sala e porta-bandeira

Representando “O pierrô e a colombina”, o casal Squel Jorgea e Matheus Olivério passou pelo Sambódromo numa fantasia em preto e branco. A dupla teve guardiões de “Arlequim” que a protegeu por toda a Avenida. De acordo com os especialista do SRzd no quesito, Mestre Manoel Dionísio, a apresentação foi boa. “Foi um apresentação bonita. Os dois têm sincronismo. Eles ensaiam muito e a Estação Primeira de Mangueira dá condição para isso. Parabéns Matheus, parabéns Squel e parabéns à escola”.

O mestre-sala resumiu um pouco da emoção do desfile: “Sempre um prazer imenso defender esse pavilhão ao lado da minha sobrinha Squel, esse ícone do Carnaval. A gente não tirou férias, estamos trabalhando desde março para esse desfile. E tudo que a gente faz em família dá certo (risos)”, afirmou.

Desfile Mangueira 2018. Foto: Leandro Milton/SRzd

Bateria

Vestidos de “Bate-bolas”, os ritmistas comandados por Rodrigo Explosão e Vitor Art desfilaram nas cores da escola e empolgaram o público presente nas frisas, camarotes e arquibancadas. Em determinado momento, a bateria realizava a ‘paradona’. O público se unia aos componentes e, juntos, cantavam ‘Eu sou Mangueira, meu senhor/Não me leve a mal/Pecado é não brincar o Carnaval’. Em outra bossa, no refrão de cabeça, os ritmistas simulavam a batida na lata. Os espectadores acompanhavam batendo na palma da mão.

A rainha de bateria Evelyn Bastos sambou à frente da ‘Tem que respeitar meu tamborim’ numa fantasia ousada e repleta de espelhos, intitulada “Se faltar fantasia…”.

Na opinião do especialista do SRzd no quesito, Claudio Francioni, a bateria fez boa apresentação: “Passou bem. Posso destacar o naipe de chocalhos e a boa execução das bossas. Simples, mas eficientes”.

Desfile Mangueira 2018. Foto: Leandro Milton/SRzd

Samba e carro de som

O elogiado samba da verde-e-rosa, dos compositores Lequinho, Júnior Fionda, Alemão do Cavaco, Gabriel Machado, Wagner Santos, Gabriel Martins e Igor Leal, em determinados momentos, contagiou o público da Sapucaí. As arquibancadas cantavam os refrões principais e batiam na palma da mão. A obra teve a interpretação de Ciganarey e Periclés, que estreou na Marquês de Sapucaí.

O samba-enredo, na opinião do comentarista do SRzd Wanderley Monteiro, foi um dos destaques da apresentação da Mangueira.

“Com dinheiro ou sem dinheiro eu brinco. O mundo do samba, hoje, gostaria de fazer um blocão e sair cantando esse tema pelas ruas do Rio. Mangueira trouxe um samba com cara de Mangueira, principalmente os dois refrões, lembrando os sambas de Jurandi, Hélio Turco e outros bambas da verde-e-rosa de outrora. Letra perfeita que passa o apelo da mensagem do momento, vestida por muito boa melodia. A Mangueira trouxe o Péricles no carro de som para dividir com Ciganerey a responsabilidade de cantar e encantar a comunidade mangueirense, que correspondeu à altura aos cantores e a obra da escola”.

Desfile Mangueira 2018. Foto: Leandro Milton/SRzd

Fantasias e alegorias e adereços

A parte plástica teve a assinatura de Leandro Vieira e agradou o comentarista do SRzd Luiz Fernando Reis. Com soluções criativas e esculturas muito expressivas, a Mangueira trouxe cinco carros alegóricos e três elementos cenográficos. Diferentemente dos anos anteriores, o carnavalesco utilizou, em maior escala, as cores da escola: verde e rosa. Os tons mais suaves predominaram no desfile.

O abre-alas, “Antigos carnavais”, teve um letreiro de 90 anos que homenageou o aniversário da escola. Porém, a segundo chassi passou apagado em frente ao terceiro módulo de julgamento. A alegoria “Em qualquer botequim faço meu Carnaval” trouxe os bambas da verde-e-rosa, como Alcione e Leci Brandão. Nelson Sargento, outro ilustre mangueirense, veio no carro três: “A Candelária e a Avenida”. A quarta alegoria, “Somos a voz do povo”, se destacou pelo colorido e expressividade das esculturas. Nela, diversos foliões de bloco fizeram a festa. A Mangueira encerrou seu desfile com o carro “Pouco me importam o brilho e a renda” e mostrou que o dinheiro não é o pilar principal do Carnaval.

Vale ressaltar o tripé com os dizeres “Prefeito, pecado é não brincar o Carnaval”. O elemento alegórico ainda contou com um ‘Judas’ com a cara de Crivella. As arquibancadas aprovaram e aplaudiram.

Nas palavras de Luiz Fernando: “O Leandro Vieira, com seu bom gosto, fez um belo desfile. Ele deixou sua marca de requinte. Conseguiu misturar o tom de verde e o rosa com muita felicidade. Fechou a escola de maneira emocionante, com o bloco de sujo que ele trouxe para a Avenida. Ele mostrou que o Carnaval é na rua e não precisa de Marquês de Sapucaí”.

Desfile Mangueira 2018. Foto: Leandro Milton/SRzd

Harmonia e evolução

A Mangueira trouxe não somente sua comunidade para a pista, como também o ‘povão das ruas’. A escola convocou foliões de bloco para a Avenida e os convidados não fizeram feio. A verde e rosa cantou durante toda a apresentação e, em alguns momentos, manteve interação com as arquibancadas. No que tange à evolução, a escola passou compacta pela Avenida. O único espaço, porém, se deu entre a segunda alegoria e a ala da frente. No segundo módulo, o espaçamento foi um pouco maior do que o normal.

Desfile Mangueira 2018. Foto: Leandro Milton/SRzd

Veja também:

– Vídeo: Leandro Vieira diz que não viu crise nos desfiles de 2018

– Vídeo: Rodrigo Explosão fala sobre maior desafio da bateria da Mangueira ao entrar na Sapucaí

– Rosemary defende maior divulgação de sambas-enredo nas rádios e mudanças no carnaval

Galeria de fotos

Ficha técnica

Local: Mangueira, Rio de Janeiro
Fundação: 28 de abril de 1928
Cores: Verde e rosa
Símbolo: Surdo coroado
Campeonatos no Especial: 1932, 1933, 1934, 1940, 1949, 1950, 1954, 1960, 1961, 1967, 1968, 1973, 1984, 1984, 1986, 1987, 1998, 2002 e 2016
Colocação em 2017: 4º Lugar – Grupo Especial
Presidente: Chiquinho da Mangueira
Carnavalesco: Leandro Vieira
Intérprete: Ciganerey e Péricles
Diretor de Carnaval: Comissão de Carnaval
Mestre de Bateria: Rodrigo Explosão e Vitor Art
Rainha de Bateria: Evelyn Bastos
1º casal de mestre-sala e porta-bandeira: Squel Jorgea e Matheus Olivério
Comissão de frente: Adriana Salomão e Steven Harper
Enredo 2018: “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco”
Número de carros alegóricos: 06

Samba-enredo

Compositores: Lequinho, Júnior Fionda, Alemão do Cavaco, Gabriel Machado, Wagner Santos, Gabriel Martins e Igor Leal

Chegou a hora de mudar
Erguer a bandeira do samba
Vem a luz à consciência
Que ilumina a resistência dessa gente bamba
Pergunte aos seus ancestrais
Dos antigos carnavais, nossa raça costumeira

Outrora marginalizado já usei cetim barato
Pra desfilar na mangueira

A minha escola de vida é um botequim
Com garfo e prato eu faço meu tamborim
Firmo na palma da mão, cantando laiálaiá
Sou mestre-sala na arte de improvisar

Ôôôô somos a voz do povo embarque nesse cordão
Pra ser feliz de novo
Vem como pode no meio da multidão

Não… não liga não!
Que a minha festa é sem pudor e sem pena
Volta a emoção
Pouco me importam o brilho e a renda
Vem pode chegar…
Que a rua é nossa mas é por direito
Vem vadiar por opção, derrubar esse portão, resgatar nosso respeito
O morro desnudo e sem vaidade
Sambando na cara da sociedade
Levanta o tapete e sacode a poeira
Pois ninguém vai calar a Estação Primeira

Se faltar fantasia alegria há de sobrar
Bate na lata pro povo sambar

Eu sou Mangueira meu senhor, não me leve a mal
Pecado é não brincar o carnaval!

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