Alegria da Zona Sul 2018: escola defende liberdade religiosa com enredo afro-brasileiro

Uma das escolas mais jovens da Série A, a Alegria da Zona Sul foi a primeira a desfilar no segundo dia de apresentações na Marquês de Sapucaí. Com o enredo “Bravos Malês – A Saga de Luiza Mahin”, desenvolvido pelo carnavalesco Marco Antônio Falleiros, a agremiação foi mais uma das que sofreram com a falta de verbas para colocar o Carnaval na Avenida, uma realidade muito presente.

O enredo, mais um dos que traz histórias mitológicas envolvendo líderes africanos, foi bem desenvolvido durante todo o desfile, com fantasias fáceis de serem interpretadas e condizentes com a proposta do carnavalesco. Na Série A desde 2012, quando foi vice-campeã da Série B, a escola tem como característica a utilização de enredos que remetem aos negros, tendo levado aos desfiles por ao menos 4 anos.

Para evitar o gasto de dinheiro e ter mais verbas para o Carnaval deste ano, a agremiação não realizou disputa de samba e optou por uma obra criada pela parceria do compositor Samir Trindade.

Antes do início do desfile, Marcus Vinícius Almeida, presidente da escola, falou sobre o problema da falta de verba. “Queria agradecer à nossa madrinha, que aos 45 minutos do segundo tempo, conseguiu uma verba que pôde ajudar a gente a terminar o Carnaval”.

Enredo

Desfile da Alegria da Zona Sul 2018. Foto: Juliana Dias/ SRzd

Luísa Mahin, nascida no início do século XIX, foi uma personagem parcialmente mitológica da história do Brasil, que, segundo a Fundação Palmares, teria sido uma ex-escrava de origem africana, radicada no Brasil, que teria tomado parte na articulação de todas as revoltas e levantes de escravos que sacudiram a Província da Bahia nas primeiras décadas do século XIX.

Na Sapucaí, a escola desfilou bravamente, usando soluções criativas e apostando na proximidade com o público, atento à apresentação.

Comissão de frente

Com a fantasia “Voduns – O Matiz da Criação”, a Alegria da Zona Sul mostrou, com 14 bailarinos, uma coreografia onde representava o grande ritual místico dos Malês. A ala levou à Sapucaí uma mensagem contra a intolerância religiosa, aplaudida pelo público e pelos jurados nos dois primeiros boxes de julgamento.

Desfile da Alegria da Zona Sul 2018. Foto: Juliana Dias/ SRzd

Assinada por Leandro Azevedo, mostrou simplicidade elucidando a beleza dos movimentos, e apostou na mensagem, utilizando símbolos de diversas religiões, como o Om, símbolo do hinduísmo, e o Olho de Hórus, ‘Udyat’, símbolo oriundo do Antigo Egito.

Casal de mestre-sala e porta-bandeira

No primeiro ano como primeiro casal da Alegria da Zona Sul, Alessandra Chagas e Diego Machado, mostrou gingado e interação. Em entrevista ao SRzd, a porta-bandeira falou sobre a ida para a escola:

Desfile da Alegria da Zona Sul 2018. Foto: Juliana Dias/ SRzd

É sempre bom a gente ter um lugar novo, a gente chega com o gás renovado

“É sempre bom a gente ter um lugar novo, a gente chega com o gás renovado. Eu e o Diego estamos muito felizes e a gente agradece essa oportunidade. Ensaiamos bastante para estarmos aqui hoje, e só queremos agradar a todos: jurados, público, imprensa. Nossa fantasia representa o Sol e a Lua, mas vista de uma visão africana. Eu amo desfilar, eu amo dançar”.

Bateria

Desfile da Alegria da Zona Sul 2018. Foto: Juliana Dias/ SRzd

Sem muitas novidades ou diferenças, a bateria da Alegria da Zona Sul fez um bom desfile, tendo um andamento confortável durante toda apresentação. Para o comentarista do SRzd Claudio Francioni, o desfile foi correto:

A bateria da Alegria da Zona Sul fez um desfile correto.

“A bateria da Alegria da Zona Sul fez um desfile correto, com boa execução das bossas e bom equilíbrio de timbres. O destaque foi o confortável andamento apresentado durante toda a Avenida”.

Desfile da Alegria da Zona Sul 2018. Foto: Juliana Dias/ SRzd

Samba e carro de som

O carro de som da Alegria não ousou, mas teve um bom desempenho. À frente da escola pelo primeiro ano, Igor Viana mostrou seu potencial. Segundo o comentarista do SRzd Wanderley Monteiro, o bom desempenho contou com ajuda do samba que foi levado para a Avenida:

Escola cantou com garra e o samba conduziu bem a Alegria na Avenida.

“Alegria da Zona Sul trouxe um bom samba para a Sapucaí. Ajudado pelo ritmo cadenciado da bateria que favoreceu a boa interpretação do cantor Igor Viana e seus pares do carro de som. A escola cantou com garra e o samba conduziu bem a Alegria na Avenida.”

Fantasias, alegorias e adereços

As fantasias foram um destaque positivo no desfile da Alegria da Zona Sul. Investindo nas cores e com materiais bastantes interessantes, a escola de Copacabana contou com a experiência de Marco Antônio Falleiros, carnavalesco da agremiação.

Desfile da Alegria da Zona Sul 2018. Foto: Juliana Dias/ SRzd

Os carros, no entanto, contaram com alguns problemas. Diversos detalhes de acabamento não foram finalizados, deixando o conjunto aquém do que algumas concorrentes mostraram em seus desfiles.

Para Hélio Rainho, comentarista do SRzd no quesito, o trabalho do carnavalesco merece atenção:

Marco Antônio Falleiros é um carnavalesco já experiente e vêm desenvolvendo um trabalho que a gente vem prestando bastante atenção.

“Marco Antônio Falleiros é um carnavalesco já experiente e vem desenvolvendo um trabalho que a gente vem prestando bastante atenção. É uma escola que, há alguns anos, vem colocando Carnavais mais diminutos, e esse ano não foi diferente. Com um enredo afro, que teve uma proposição diferente, eles conseguiram trazer uma leitura fácil, o que estava no roteiro, podia ser visto. Eu acho que as fantasias tiveram soluções bastante criativas, como um grande bloco que se manifesta na Avenida de uma maneira muito interessante. Os carros alegóricos, plasticamente, tiveram alguns problemas de finalização. Não foi uma passagem que a gente possa considerar como postulante ao título, mas está brigando para permanecer neste grupo.”

Harmonia e evolução

A Alegria da Zona Sul teve uma passagem justa em seu desfile. Sem erros, não fez um Carnaval para disputar o primeiro lugar e, dificilmente, irá figurar entre os primeiros lugares. Mas com um desfile que agraciou o público, e tecnicamente sem problemas, deve permanecer na Marquês de Sapucaí. Segundo Luiz Fernando Reis, especialista em harmonia do SRzd, a escola deve ficar entre as últimas colocações:

Ela está disputando realmente as últimas colocações

“Fez um desfile dentro das suas possibilidades. Sem erros, sem falhas. Não passou para disputar o Carnaval, com certeza não. Ela está disputando realmente as últimas colocações. Mas fez melhor que a Unidos de Bangu e a Sossego, então, acredito que a Alegria não corra nenhum risco de descer, mas não está disputando o título. Ela não corre nenhum risco, mas também não está disputando posições na parte de cima da tabela”.

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Veja fotos do desfile

Ficha técnica da escola

Bandeira do GRES Alegria da Zona Sul.png

Fundação: 28 de julho de 1992
Cores: vermelho e branco
Presidente: Marcus Vinícius Almeida
Carnavalesco: Marco Antônio Falleiros
Diretor de Carnaval: Flávio Azevedo
Diretores de Harmonia: Carlos Jorge, André Jalles e William Esteves
Mestre de bateria: Claudinho
Rainha de bateria: Anny Santos
Mestre-sala e porta-bandeira: Diego Machado e Alessandra Chagas
Coreógrafo da comissão de frente: Leandro Azevedo
Alas: 18
Carros alegóricos: 4

Samba-enredo

– Ouça o samba-enredo da Alegria da Zona Sul

Autores: Samir Trindade, Telmo Augusto, Fernandão, Girão, Marco Moreno, Marcelão da Ilha e Thiago Meiners
Intérprete: Igor Vianna

Jejê-Nagô ôôô
Ilumina meu caminhar
Diziam meus ancestrais na infinita imensidão
Voduns são a matiz da criação
Fui batizada Luiza, vi a fúria do invasor
Eu sou a virtude de Daomé
No meu sangue, a minha fé, bravura pra enfrentar
Coragem norteando o meu destino
Aprisionada aos porões no além-mar

Ô saudade que navega em águas claras
Fortaleza de um nobre coração
Salvador, então “africanizada”
Negra herança, raiz do meu chão

Lutar, para sempre lutar
À luz de Allah, a insurreição
Na pele, a força que inflama a negritude
Na revolta, atitude, pela libertação
Um grito por igualdade, orgulho dos ancestrais
A chama que persiste é esperança
Mesmo traída não me calarei jamais
A raça não se curva a chibata
Poesia eternizada nos meus ideais

Bate o tambor, um canto ecoa!
Ô kolofé, kolofé malê
Incorpora minha alma africana
Alegria é resistência, faz o sonho florescer

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srzd



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