Carnaval/RJ

O Xeque-Mate do Bispo (ou O Redesenho Moral do Samba – Parte 3)

Imagem: Banco de dados / internet

 

Por falta de aviso não foi. O Império Serrano avisou em 1982: < Superescolas de Samba S.A. / Superalegorias / Escondendo gente bamba / Que covardia! > (Beto Sem Braço e Alusio Machado). A São Clemente também gritou na cara de todo mundo em 1990: < Vejam só / Do jeito que o samba ficou / E sambou! / Nosso povão / Ficou fora da jogada / Nem lugar na arquibancada ele tem mais pra ficar > (samba de Helinho 107, Mais Velho, Nino, Chocolate). Esses dois gritos mais cabais das escolas de samba diante da hegemonia do fator financeiro que lhes estrangulava impiedosamente, banindo tradições e pessoas em prol de “recursos” e “investimentos”, não vieram de “gestores” nem de “administradores”: vieram de crioulos sambistas, compositores autênticos. Pra eles, o samba minimamente precisava de autonomia, liberdade criativa, independência. Subvenção, sim, mas sem algemas nem alforges, e sem se arraigar ao capital. Pra eles, escola de samba não era só dinheiro. Era chão, poesia, legado.

Mas não foi essa a ideologia que vigorou, historicamente, ano após ano.

Confirmamos, no chão da avenida carioca, a previsão antiga dos pensadores alemães da distante Escola de Frankfurt, lá pelos anos 40 do século passado, sobre a tal Indústria Cultural (em alemão, Kulturindustrie), termo crítico cunhado para ilustrar a situação da arte na sociedade capitalista industrial. Para pensadores como Adorno e Horkheimer, a tendência era que a arte popular e a erudita fossem, pouco a pouco, apagadas pela máquina capitalista.

Se olharmos a escola de samba, o que aconteceu? O que todo mundo sabe: “se não houver dinheiro, não haverá carnaval”! Costuramos uma dependência tão intrínseca entre uma coisa e outra – escola de samba e dinheiro – em todos esses anos, que, finalmente, chegamos a um impasse. “Não tem dinheiro? Não tem escola de samba!”.

Existe escola de samba sem Velha Guarda. Ou que a despreze. Sem fundadores. Ou que os despreze. Sem passistas. Ou que os despreze. Existe escola de samba sem compositores de verdade (sem os “de dentro”, não sem os “de condomínio”). Existe escola de samba com sertanejo, axé, “pagonejo” e cobaia de clinica de cirurgia plástica e academia de maromba atômica. “Tem dinheiro?!?! Tá pagando?!?! Deixa entrar!!!!”.

Existe escola de samba “sem samba”. Mas se não tiver dinheiro…ela para! É este o recado. “Quero ver você sair da sua coluna e ir lá administrar sem dinheiro”. Não dá, querido! É sobre isto que estou escrevendo…me entenda também, assim como eu já te entendi! “Sem dinheiro, não tem escola de samba”! Parabéns aos envolvidos em tal projeto!!!

A escola de samba não é pura: é misturada. E não é “misturada” no bom sentido antropológico do termo, não. Não é democracia nem pluralidade. Isso ela já foi. É misturada porque tem, hoje, duas realidades distintas: gestores decentes tentando preservar o legado dentro de um inevitável quadro mercantilista e outros mais preocupados com “comércio” do que com samba. Há trigo e joio, como em todas as áreas de nossa sociedade.

O Velho Estacio de Sá também avisou lá em 91: < Televisão / Deusa da fascinação / Balcão de fantasia / De produto sempre nobre / Cega rico, cega pobre / É consumo, hipocrisia > (samba de Maneco, Orlando e Jangada). Exemplo claro da escravidão consentida a que as escolas de samba se submeteram, ano após ano: a trágica interferência da televisão nos desfiles. Sem nenhum esboço de reação, em obediência cativa às determinações da “TV que compra os desfiles”, aceleraram o andamento dos sambas, neutralizaram as cores representativas da identidade de cada escola (tem que “colorir” pra não ficar uma “transmissão monocromática”), espremeram o sambista entre dois pontos do cronômetro pra sambar com hora marcada. Este ano, a televisão monocrática sacramentou algo pior: decidiu banir as primeiras escolas de samba desfilantes da transmissão de TV. Em nome da subserviência financeira e da dependência econômica, as escolas aceitaram. Ficaram “chateadinhas”, mas só franziram a testa. Logo depois, sorriram para seus colonos. E nem ameaçaram fazer passeata, “ir pra rua” ou pra porta do Projac reclamar. Que nada! “Patrão paga, patrão manda”! Mesmo oferecendo uma transmissão de baixíssima qualidade crítica e artística que desfigura a cultura da escolas, a emissora que foi eleita está lá “soberana e insubstituível”. E até mesmo uma parcela da imprensa carnavalesca dita “engajada” se omite de apontar isso, porque sonha estar lá “comentando”, e não quer “queimar seu filme” porque a emissora é seu “mercado de trabalho”…! É muito milho pra pouca pipoca!!!

A lógica comercial é esta mesmo: “vender-se” a qualquer preço!!! As escolas de samba atravessaram o século sem NUNCA pensarem que, um dia, a subvenção lhes poderia faltar. Seus bicheiros seriam imortais. Os governos, eternos simpatizantes. Por ingenuidade e incompetência (seria só isso???), ficaram dependentes de TV, de prefeito, do cacete a quatro. São “gestores”, mas nunca ouviram falar da tal “gestão do risco”?! Ué…

Os bambas do início do século passado não precisavam de dinheiro pra botar escola de samba na rua. Precisavam de negros, pobres, batuqueiros, sambistas, favelados, poetas, artistas. Hoje???? Vem logo o recado: “a realidade é outra!!!”. Eheheh…bem sabemos qual é a “realidade”…

Agora chegamos ao prefeito. Ele é branco, crente e não se achega a nós. Nem passou perto do sambódromo no período de carnaval. Direito que lhe assiste, não é isso? Mas vamos lembrar que o cidadão elegeu-se para ser “cuidador”. E apareceu na televisão dando entrevista, com cara de bom samaritano, jurando que a verba do nosso “bumbumpaticumbumprugurundum” vai virar papinha de criança nas creches municipais. Claro, se ele dissesse que era pra custear salários de assessores, passagens de voos para agendas internacionais dele ou carros alugados para mordomias políticas, ficaria pouco comovente e apelativo. Política, no Brasil, se faz com apelo popular (populista? popularesco? sei lá…). Tem que ser comovente e envolver pobres ou crianças pra justificar tudo. “Queremos pobres andando de avião e crianças com comida na merendeira”!

Pronto! Tá eleito!!!

Desprezando de forma ordinária o retorno financeiro que os desfiles de escolas de samba dão à cidade (mesmo vendidos via fax, já que escola de samba adora primitivismo tribal), o bispo não tem sequer um fazedor de contas no gabinete pra calcular a taxa de retorno do espetáculo. Que nem é “carnaval”, é apenas isto: espetáculo mesmo. A desculpa pro xeque-mate do bispo é que “todos estão se sacrificando para recuperar a economia da cidade”.

Lá na Bíblia, está escrito assim (ordem de Jesus a seus discípulos): “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Pergunto ao bispo: quantas igrejas tem o município do Rio de Janeiro? Quanto arrecadam? Quanto pagam de impostos? Onde prestam contas do que arrecadam? Como estão os planos administrativos da sua (indi)gestão para que as igrejas “se sacrifiquem pra recuperar a economia da cidade”?!

Esse proselitismo ainda não me sugere, a princípio, intolerância religiosa. Separo uma coisa da outra. Se assim fosse, o bispo não teria empossado uma autêntica representante do samba e da cultura afrodescendente como secretária de cultura. “Foi maquiagem!” – dirão alguns. Mas o fato é que ela está lá, empoderada e militando em muitas causas genuinamente. Intolerância existe em todos nós. Só falta admitir. Até nos que repudiam as igrejas e os evangélicos todos por causa de erros e exageros dos maus exemplos. Querendo ou não, é intolerância, também. Mas nitidamente esse tratamento dado ao carnaval me sugere dois aspectos muito graves. De um lado, a deprimente decadência do foco cultural e dos preceitos das escolas de samba, que se enchem de poder até pra ludibriar o público mudando resultado de campeonato após vender ingresso a preço de ouro pra um desfile de campeãs, mas não conseguem pleitear NADA – nem imposições da televisão, nem golpes políticos contra os desfiles. Cadê a “plenária” e os “poderosos” agora?! De outro lado, a incompetência dos nossos governos em todos os níveis, com decretação de falência financeira e penúria afetando áreas fundamentais de uma sociedade, como a educação, a cultura, a segurança, a saúde. Ninguém cancela os apartamentos de luxo pros deputados e senadores de Brasília, nem a ajuda de custo pra ternos, combustível e outras benesses desses sanguessugas republicanos. Resolveram mutilar a arte, a cultura popular. Pior: fizeram a conta errada e vão arrombar ainda mais o orçamento, perdendo o lucro real da festa.

Não acredito que esse impasse prossiga. A meu ver, a mise en scène se resolve. E parece ter vindo para atestar definitivamente que, no dia em que acabar o dinheiro, “o espetáculo não se pagará”. Mas apenas para alguns. Pro bom crioulo do morro, que perdeu a voz e a vez, a escola de samba já parou e já não desfila faz muito tempo. Mesmo antes do bispo decidir retirar da cultura popular o que nunca tiraria dos púlpitos milionários do supermercado da falsa fé.

Pros saudosistas, sambistas de verdade, o enredo deve ser bem outro. Mais vale um jegue que me carregue do que um prefeito que me derrube!

Salve, salve Rosa Magalhães e o samba!!!

 

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srzd



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