Cordialidade e ausência de novas ideias marcam primeiro debate entre os presidenciáveis

Debate na Band. Foto: Reprodução

O primeiro debate entre os candidatos à Presidência da República aconteceu na noite desta quinta-feira (9), promovido pelo Grupo Bandeirantes e mediado pelo jornalista Ricardo Boechat.

Oito, dos treze candidatos, participaram do encontro, cumprindo a legislação eleitoral que obriga as emissoras a convidar apenas os representantes dos partidos ou coligações com no mínimo cinco parlamentares com assento no Congresso Nacional.

Estiveram presentes Alvaro Dias (Podemos), Cabo Daciolo (Patriota), Ciro Gomes (PDT), Geraldo Alckmin (PSDB), Guilherme Boulos (PSOL), Henrique Meirelles (MDB), Jair Bolsonaro (PSL) e Marina Silva (Rede).

Por estar preso em Curitiba, desde abril deste ano, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, foi impedido pela justiça de comparecer. Ainda assim, foi convidado pela emissora. Fernando Haddad, vice de Lula, acompanhado de Manuela D’Ávila, do PC do B, que abriu mão de lançar-se ao Planalto, participaram de evento alternativo transmitido pelas redes sociais.

+ primeiro bloco

Na abertura do encontro, os candidatos responderam a uma mesma pergunta, colhida junto aos leitores do jornal Metro, do grupo Band. O tema escolhido pela maioria dos cidadãos ouvidos foi emprego: “Se eleito que medida tomará para estimular o emprego, quando ela será implementada e de onde virão os recursos?”.

Alvaro Dias foi o primeiro a responder, e preferiu apresentar-se. O tempo esgotou-se, e ele não abordou a questão. Em seguida, Cabo Daciolo deu “glória a Deus”, atacou todos os adversários, criticando a classe política, e lembrou a Constituição para falar de direitos sociais.

Geraldo Alckmin afirmou que emprego é questão central, sugeriu a desburocratização do Estado e a simplificação tributária, além de abertura da economia para os países do exterior. Única mulher presente entre os postulantes ao cargo máximo do executivo nacional, Marina Silva ressaltou que violência é, sobretudo, uma consequência do desemprego.

Bolsonaro também abriu sua intervenção lembrando de Deus e defendeu o comércio com o exterior, sem viés ideológico. Candidato do PSol, Boulos saudou Lula, lembrou a vereadora Marielle Franco e disse que a primeira medida é revogar os projetos do atual governo, de Michel Temer, além de anunciar investimento público, mexendo nos privilégios dos mais ricos. Meirelles também optou por contar sua história e garantiu o desenvolvimento econômico como saída para o cenário atual.

Fechando a rodada, Ciro Gomes disse querer gerar dois milhões de empregos, já no primeiro ano de governo, estimulando o consumo das famílias, “descarterizando” o sistema financeiro, ajustando as contas públicas e investindo na indústria nacional.

+ Boulos versus Bolsonaro

Na sequência, aberto o espaço para as perguntas entre os candidatos, com direito a réplica e tréplica, o clima esquentou. Boulos escolheu Bolsonaro, chamando-o de racista e homofóbico, o acusou de privilégios e perguntou quem era Val. O ex-militar explicou que a senhora era sua funcionária, em uma propriedade, próxima de Angra dos Reis, defendeu os filhos, que também estão na vida pública, e se disse honesto e humilde. Boulos retomou o tom de acusação, criticando a trajetória parlamentar de Bolsonaro, que abriu mão de seu tempo na tréplica, chamando o oponente de desqualificado.

+ saúde, emprego, economia e afagos pautaram o primeiro bloco

O conjunto de perguntas, ainda no bloco inicial, trouxe, em grande parte, temas como emprego, saúde e economia. A marca foi o clima amistoso entre os candidatos ao tratar das questões. E não faltaram troca de gentilezas, inclusive. Bolsonaro e Alvaro Dias, Alckmin e Ciro, bateram bola cordialmente.

+ jornalistas perguntam; violência, reformas e aborto

O segundo bloco trouxe os questionamentos dos jornalistas selecionados pela organização do evento. O drama da Segurança Pública entrou em debate. Nas respostas, nada de novo. Alckmin e Alvaro Dias, mantiveram o já conhecido discurso sobre o tema. Bolsonaro seguiu defendendo a tese de armar a sociedade, Cabo Daciolo pregou o amor, e assim como Boulos, afirmou que o problema brasileiro não é falta de receita ou recursos, e sim, acabar com os privilégios, tanto da classe política, quanto de parte do empresariado.

As polêmicas reformas trabalhista e da previdência, e suas consequências, seguiram sem o devido aprofundamento nas suas motivações e consequências. Ciro propõe a revogação de ambos os textos, Geraldo os defendeu, timidamente.

O aborto mereceu uma discussão mais elaborada entre Boulos e Marina, cada um, coerente ao seu campo ideológico, trouxe seus argumentos. Mas o debate voltou a ficar superficial, quando a educação foi tratada por Ciro e Bolsonaro ao fim do bloco. Nenhum deles conseguiu expor propostas concretas para enfrentar o histórico déficit nesse campo.

+ o novo e o velho, Deus, os donos do Bolsa Família e o SPC

Na terceira parte do debate entre os presidenciáveis, os candidatos voltaram ao confronto direto de ideias, no mesmo formato do bloco inicial.

O emblemático programa social dos governos petistas, o Bolsa Família, foi disputado e defendido, oportunamente, por Meirelles e Alckmin. Bolsonaro e Daciolo, colocaram-se como o novo, insinuando que os demais representam a continuidade da velha política. O candidato do PSL se lançou como um outsider, Daciolo voltou a citar Deus e protestou contra os institutos de pesquisa. Ciro e Marina, trocando elogios, debateram questões ambientais.

O mais “nitroglicerínico” da noite, Boulos acusou Meirelles de defender o empresariado, e também atacou os demais, citando um filme americano: “Eu sei o que vocês fizeram no verão passado”.

Em seguida, Ciro arrancou aplausos e risos da plateia ao dizer que não poderia responder a uma pergunta de Daciolo sobre seu passado e a criação de um movimento de união dos países da América Latina para a construção de uma única nação. Mas escorregou ao não explicar para Bolsonaro como faria para cumprir a promessa de tirar o nome dos brasileiros do SPC – segundo ele, mais de 63 milhões de pessoas.

+ política ‘podre’, reajuste do STF e a corrupção

Já entrando na madrugada de sexta-feira (10), os jornalistas voltaram a fazer perguntas.

A corrupção, tema cotidiano do noticiário da vida brasileira, abriu o bloco. Alvaro Dias propôs a “refundação da república”, Daciolo adjetivou a política de “podre” e prometeu ação forte contra os corruptos: “Vou pegar eles”.

Alvaro Dias voltou ao protagonismo no debate ao discutir com Ciro o reajuste aprovado pelo Supremo Tribunal Federal, o STF, o efeito cascata dessa medida e o aumento que representa no rombo dos cofres públicos. A corrupção ainda permeou as falas de Alckmin, Marina e Bolsonaro, sem citarem, porém, medidas efetivas de como minimizar uma das maiores chagas do país.

O duelo Bolsonaro e Boulos voltou à cena. O deputado federal defendeu os militares, Boulos o acusou de explodir bombas e ser expulso do Exército. Ambos pediram direito de respostas. Ambos negados. Ao final da quarta parte do encontro, Bolsonaro pediu direito de resposta para uma afirmação de Ciro sobre um projeto de lei do parlamentar. Como não houve nenhuma ofensa pessoal, condição para conceder o direito, o mediador, negou o pedido. Com o microfone desligado, Jair Bolsonaro seguiu argumentando, e Ciro pediu calma.

O encerramento manteve o tradicional formato, onde cada um dos oito participantes fez suas considerações finais. Num debate sonolento, os candidatos constataram, em suas diferentes intervenções, a já conhecida realidade brasileira, mas, majoritariamente, não apresentaram propostas concretas de como resolvê-la, na prática, ao assumir o governo, em janeiro de 2019.

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